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28 de ago de 2014

Minha namorada borderline - depoimento




Oi Eilan, tudo bem com você?

Venho encarecidamente pedir ajuda em uma situação que não estou mais conseguindo administrar. Vou tentar resumir a história...

Conheci uma menina linda e muito querida em 2009, através de uma amiga em comum, conversávamos nos intervalos nas manhãs de aula por um tempo, mas nada além de poucas palavras. Desde o início simpatizei muito com ela. Passamos alguns anos sem nos ver e acabamos por nos reencontrar na metade do ano passado, nos reaproximamos como amigas. Em janeiro desse ano começamos a ficar, no início era algo sem envolvimento, só por diversão mesmo. Com o passar do tempo os sentimentos foram surgindo e nossa aproximação aumentando. Foram 8 meses convivendo, conversando diariamente. Acabei me apaixonando por ela.

Quando fazia um mês que estávamos juntas, ela me contou que tinha TPB. Eu sabia que ela havia desistido dos fármacos que utilizava em um tratamento, porém não sabia que eram referentes a esse transtorno. Havia parado o uso ainda em dezembro por achar que eles modificavam muito a personalidade dela. Também vinha de um fim de relacionamento de dois anos com outra menina. Nesse mesmo mês ela teve uma briga com a terapeuta, e desistiu da psicoterapia também. Detalhe, ela formou-se em psicologia em dezembro do ano passado, tem 23 anos. Eu tenho 24 e sou estudante, agora, do quarto semestre de psicologia.

De lá, até o início dessa semana, estivemos juntas. Mas acabamos terminando o relacionamento por eu não saber mais o que fazer. Ela vem piorando a cada dia, tivemos momentos complicados, ela continuava a ficar comigo e com a ex namorada ao mesmo tempo. Elas trabalham no mesmo local, o que dificulta a minha situação. A outra menina, havia acabado o relacionamento com ela, alegando que não sabia lidar com a imaturidade, se arrependeu e quis voltar atrás. eu pedi diversas vezes que se não fosse intenção dela levar nossa relação adiante, ela deveria me avisar, coisa que ela nunca fez, ao contrário, sempre incentivou. Brigamos muito, mas não conseguíamos ficar longe uma da outra. Em julho resolvi pedir ela em namoro, ela aceitou com alguma relutância. Sempre alegando um medo de me fazer mal, também falou poucas vezes que me ama, que não tinha certeza disso. E admitia que não consegue se afastar da ex (e nem de mim). Nas últimas duas semanas ela me afastou muito, não me respondia direito, me deu bolo várias vezes. Pedi se ela gostaria de terminar o namoro, ela disse que sim. Foi o que fiz. 
Mas o que me preocupa é que ela está muito mal, muito mesmo, ainda nesta segunda, antes de terminar vi ela ter uma acesso de psicose e também notei que ela vem pegando a personalidade da ex namorada. Afastou quase todos os amigos e a família ignora as necessidades psicológicas dela. A mãe é um grande problema nisso, por não aceitar o transtorno e nem a homoafetividade. Conversamos sobre ela voltar a se tratar (coisa que fez desde uns 14-15 anos), mas ela me disse que não quer pq não tem solução, que está cansada e tem direito a negar tratamento. Estou muito preocupada com tudo isso. Como era a vontade dela, desde terça me afastei, mas não sei mais o que fazer. Ela veio atrás mas me mantive longe, estou com medo de estar piorando a situação dela. Estou com muito medo que ela tente suicídio ou algo assim. Fico confusa, não sei se faço bem ou mal pra ela, só sei que sou a única pessoa que tem percebido o quão mal ela está...

Por favor, me sugira algo pra fazer. Estou completamente sem norte e a amo muito, não quero que nada ruim aconteça com ela.

Obrigada por ler meu desabafo.

Beijos,

****************

* Baby... Infelizmente o que se tem pra fazer é torcer que ela busque o tratamento. Eu sempre bato nessa tecla: tem como ter uma vida que valha a pena ser vivida, mas precisamos do tratamento. Senão vai tudo por terra. 
E não dá pra obrigar ela a ir. Claro que a situação com a família dela não ajuda em nada, todavia ainda assim a escolha é dela, ainda mais sendo estudante de psicologia. 
Tente conversar, mas se preserve, sempre.


26 de ago de 2014

Música Borderline: Pearl Jam - Amongst The Waves





Empolguei-me e resolvi postar de novo (risos)

Essa música tem sido meu hino toda vez que eu me sinto de alguma forma meio pra baixo. Para me lembrar que eu já estive pior, e que dei a volta por cima :)

Tradução dela pra vocês:



Entre as ondas

O que costumava ser um castelo de cartas
Virou um depósito
Poupe essas lágrimas que estão jorrando
Vamos nadar essa noite, querida

E quando estivermos fora da ressaca
Só você e eu, e nada mais
Se não fosse pelo amor, eu estaria me afogando
Já vi funcionar dos dois jeitos

Mas estou de pé andando entre as ondas
Onde posso sentir que eu
Tenho uma alma que já foi salva
Onde posso sentir que eu
Deixei de lado o meu velho túmulo

Preciso dizer isso agora
É melhor que seja alto do que tarde demais
Lembra do passado, os primeiros dias
Quando você era jovem e menos impressionada
De repente o canal mudou
Na primeira vez que você viu sangue


Agora vai mais pra frente, agora você é forte
Você mesma já sangrou, as feridas se foram
É raro quando não tem nada errado
Sobreviveu, e você está entre as melhores
Amor não é amor até que você sinta

De pé, andando entre as ondas

Posso sentir que eu
Tenho uma alma que já foi salva
Eu posso ver a luz
Entrando em raios por entre as nuvens

Preciso dizer isso agora
É melhor que seja alto do que tarde demais
Preciso dizer isso agora
É melhor que seja alto do que tarde demais

Andando entre as nuvens
Posso sentir que eu
Tenho uma alma que já foi salva
Eu posso ver a luz
Entrando em raios por entre as nuvens

Preciso dizer isso agora
É melhor que seja alto do que tarde demais
Preciso dizer isso agora
É melhor que seja alto do que tarde demais
Dizer isso agora
É melhor que seja alto do que tarde demais

24 de ago de 2014

O que o sofrimento me ensinou.



Era uma noite quente na Penn Station e eu estava com pressa de voltar para casa. Enquanto eu caminhava pela estação de metrô lotada, uma jovem sentada no canto chamou minha atenção. Vislumbrei em seu cartaz de papelão dizendo: QUALQUER COISA AJUDA com marcador preto. Ao contrário de muitos moradores de rua que eu vejo, ela se destacou: cabelo sedoso, short jeans. Por um rápido segundo eu me perguntei o que uma mulher como ela estava fazendo nas ruas - ela parecia uma filha que faria qualquer mãe orgulhosa -, mas assim como muitos dos passageiros daquele dia, eu continuei caminhando. O que eu poderia fazer nos 10 minutos restantes para pegar o trem? 

Não demorou muito para eu me perguntasse mais sobre ela. Qual era a sua história? O que a levou àquela situação, pedindo a ajuda de estranhos? Como ela está sobrevivendo? Eu estava em choque. Na verdade verdadeira, eu estava desconfortável comigo mesma. E nesse instante, ocorreu-me: poderia ter sido eu. 

Nos meus momentos mais desesperadores, pensei em muitas coisas para escapar do meu sofrimento: em um dia bom, foi uma mudança para a África, como voluntária na Tanzânia. Nos dias ruins que era automutilação, a ameaça de suicídio, e sim, viver nas ruas. Eu não sei por que viver nas ruas fazia sentido para mim. Acho que pensei que meus amigos e família ficariam arrasados se eu deixasse-os permanentemente e viver nas ruas talvez fosse suavizar o golpe de eu desaparecer. Eu não sei. Era uma idéia desesperadora. Cheguei perto de realizar este plano de fuga, mas o pensamento dos meus entes queridos me parou - ele sempre o fez. Eu tenho a sorte de tê-los olhando por mim. E eu sei que muitas pessoas não têm isso. 

Mas esse não é o ponto deste post. Nem é o que eu fiz para ajudar essa jovem senhora. A questão é por quê. Veja só, eu nunca consegui descobrir a história dela. Eu nunca perguntei por que ela estava sem teto ou o que sofreu para chegar lá. O que me impressionou foi que ao vê-la sozinha naquele canto, eu me liguei a seu sofrimento. Eu não sabia nada sobre ela e, no entanto, eu sabia que ela estava sofrendo.

Eu queria que ela soubesse que eu sabia. Que eu reconheci onde estava na vida e que estava tudo bem. Que eu era uma testemunha de sua luta e por causa disso, ela ainda tinha a dignidade. De forma alguma eu entendia o que era ser ela, mas eu queria que ela soubesse que haviam pessoas lá fora também travando batalhas difíceis. 

Naquela noite, antes de pegar o trem para casa às 17:08, eu caminhei de volta para aquela jovem. Eu estava com medo, nervosa, indigna. 

"Olá? ... Olá?" 

Ela levantou os olhos do livro que estava lendo. Seus olhos estavam cansados​​, mas ainda bonita. Ela não poderia ter mais de 22 anos de idade - muito jovem, eu pensei, para estar nas ruas. 

"Você está com fome?" Era tudo que eu poderia dar. 

"Sim". 

Dei-lhe um saco com alimentos, barras de proteína e garrafas de água. Ela agradeceu e me abençoou e começou a vasculhar tudo. Eu senti como se estivesse incomodando, que ela precisava de privacidade para comer, então eu deixei-a ser e me afastei. Você deve achar que eu estava bem por causa do que eu fiz, que estava orgulhosa, mas eu tinha vergonha de  não fazer mais. Eume achei uma covarde. Eu pensava que eu tive a oportunidade de ajudá-la de alguma forma, mas amarelei. 

E então me lembrei que a minha terapeuta disse: "É só chuva". Não tire um ponto positivo por causa de sua lado negativo. Seu caráter não é falho. Você simplesmente deu a alguém algo que ela precisava. Mas olhando para trás, eu cheguei à conclusão de que era mais do que isso. Por um momento você a reconheceu como outro ser humano. Por um momento, você reconheceu como era difícil a vida dela. Era pequeno, minúsculo, foi pouco, mas foi alguma coisa. Na verdade, essa é a única coisa que você quis durante a sua própria angústia: compaixão, compreensão, dignidade. 

Para alcançar essa conexão com outra pessoa que não temos que superar o sofrimento - o meu próprio sofrimento e o dela ainda estavam lá. O que eu tinha que fazer era superar a raiva que tinha do meu sofrimento. Eu não podia procurar um significado e encontrá-lo sem antes deixar ir o sentimento do quão injustos, merdas, como implacáveis os demônios são. As pessoas que sofrem e são capazes de compreender o seu sofrimento para além da dor, são capazes de chegar aos outros, criar a ação - até mesmo ter uma vida digna de ser vivida. 

E eu acho que isso é o que as pessoas que sofrem muito podem oferecer ao mundo. Nesse momento, quando tudo o que eu poderia oferecer era um pouco de comida, eu encontrei o meu significado. Eu fiz algo pequeno e minúsculo, mas foi maior do que eu. Nós podemos fazer algo maior que nós mesmos, algo que só nós podemos proporcionar. Precisamos descobrir o que é,  não importa quanto tempo leve, não importa o quanto de sofrimento que suportamos, devemos continuar a seguir em frente. Porque debaixo de todo aquele sofrimento há uma oportunidade, e essa oportunidade nos leva a um novo nível de compreensão de nós mesmos e outras pessoas. Ele nos guia de volta para os nossos corações, de volta para a compaixão, e de volta a dignidade. E isso, creio eu, é uma coisa notável. 

A menina no canto? Eu não acho que eu teria notado sua presença, se não fosse pelos meus próprios problemas. Eu não teria sido capaz de me identificar com o sofrimento dela, fazendo-me agir, por tomando algum tipo de atitude. Dar-lhe algo foi meu jeito que eu dizer: "Seu sofrimento não é só seu, tal como o meu sofrimento não pode mais ser só meu."  Porque mesmo nas horas mais difíceis de desespero, nunca podemos ser jogados fora. Apenas por um breve momento, nós estávamos lá juntas. E vou me lembrar disso por muito tempo.

(tradução livre deste artigo: "What suffering has taught me"

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Amanda Wang, que escreveu este texto, é mais uma prova de que é possível superar o transtorno e viver uma vida digna de ser vivida. Ela é diagnosticada e após anos de tratamento advoga pela causa do Borderline, com o site The Fight Within Us, e tem projetos de criar um documentário sobre o tema. Já teve o nome aparecendo na Scientific American e tem várias participações em grandes congressos sobre o tema nos EUA.

"Eu costumava pensar que eu era louca, e sentir-se louca é muito solitário", diz ela. Quando eu descobri que eu tinha o TPB, tudo fez sentido. Eu entendi que era uma doença e que eu fazia parte de uma comunidade de pessoas que lutam com ela. Eu não estava mais sozinha."