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13 de fev. de 2017

Sobre a "estabilidade".




Então você segue o tratamento, melhora. Consegue trabalhar, consegue se relacionar. Você entende o que tem, consegue (pelo menos algumas vezes) lidar com isso e... Aí você pára de ser borderline!

Como assim? Não, não existe uma "cura". Existe a remissão dos sintomas. Você continua sentindo tudo a sua volta com uma intensidade monstra. A vontade de se cortar vem de vez em quando. As lágrimas também, e o desânimo, e a vontade de largar tudo e voltar pra cama, e ficar na cama. As vezes você até volta pra cama, mas se culpa o resto da semana (ou da vida). Você tem (mais) obrigações que as vezes não consegue cumprir, se planeja no dia anterior pra no outro dia não fazer nada porque estava dormindo. Só que tudo isso acontece e como você não está mais largada numa cama com uma lâmina na mão e um copo de vodka na outra, a parte do borderline é esquecida. Você vira novamente a dramática, irresponsável, impulsiva, difícil, louca...

Você deve estar pensando: "ok, e qual a vantagem nisso então?"
Tenho que dizer que é até mais difícil que estar em crise. É mais difícil estar de pé, se controlar, respirar, tentar agir assertivamente, tentar tirar o óculos que te faz ver tudo tão intensamente e ponderar. Pensar que amanhã as coisas não serão como hoje. Tentar fazer aqueles a sua volta entenderem que você pode estar tendo uma vida dita "normal" (conte aí marido+enteada no meu caso) e mesmo assim agir de forma "estranha" de vez em quando. Que você não fica com raiva por horas, você fica por dias. Que você estressada é um furacão e isso pode passar em questão de minutos ou meses... Aprendi nesses meus dias de "normalidade" que o estável não é tão linear assim. E que a gente fica pensando que quando alcançar a tão falada remissão dos sintomas, tudo será lindo e belo e perfeito.

Não, não é. Mas quer saber? É a remissão que me faz ver que vale a pena. Que, por mais que as vezes eu queira me colocar naquele meu papel seguro de "não é minha culpa, então me aguentem!" e fazer toda sorte de cagadas, minha vida de hoje vale ser vivida. Meu sofrimento vale a pena, porque eu consigo enxergar a beleza das partes boas. Eu não parei de ter problemas de auto-estima, não parei de ser insegura, mas eu consigo arranjar forças pra continuar em mim mesma e naqueles que eu amo que estão à minha volta. Orgulho-me de não me cortar há mais de um ano e meio. De estar num emprego onde pessoas confiam em mim. De ter uma família linda, meus gatos. Antes, nada disso era motivo pra me fazer sair da cama, nem eu mesma era motivo pra sair da cama e ver o dia.

Então não queira a perfeição. Ela não existe.
Queira uma vida que valha a pena ser vivida. Queira ser feliz sabendo que o "ser" pode virar "estar" ou "não estar". Aproveite o momento com os pés no chão de quem sabe que a luz no fim do túnel existe sim, ela só não brilha do jeito que a gente imagina.


13 de dez. de 2016

Das tradições de cada um

Todo o planeta tem sua tradição natalina... ok! Super compreendo.
Pro mundo todo dia 31 de dezembro é dia de refletir e decidir o que se quer mudar, dia 24 de dezembro é dia de celebrar isso ou aquilo... mas, ao longo dos anos, instituí minha própria tradição de fim de ano instituindo o dia 13 de dezembro, como o dia de dar um brake no hohoho.
De que nos vale ter um mês de “hohoho” e “best wishes”, se retomamos toda a lavagem da vida em janeiro?
O fato, meus caros, é que não sou um grinch e não pretendo estragar o natal de ninguém. Por isso mesmo o dia 13... dá tempo de digerir tudo e ainda começar um planejamento real de “hohoho” e “best wishes” a perder de vista.
Mas vamos lá... todo ano, no dia 13 eu falo um pouco das coisas que são mas não deveriam ser. Este ano tenho mais disso pra falar do que nos anteriores, dadas as cenas que andei presenciando. No entanto, este ano é o que eu menos tenho vontade de falar. Todos vocês já sabem o que penso sobre o longo período que se estende da prévia do verão ao fim do carnaval em que os brasileiros se tornam autômatos, quase zumbis, deixando de prestar atenção no que de fato faz diferença... é um quarto do ano em que estamos ocupados demais em festejos pra prestar atenção na vida real. Mas ela não espera por nós... ela segue! Quem tem fome continua com fome, quem tem dor continua com dor e nós, bem, estamos ocupados em um torpor estranho que leva a uma condição quase bestial. Sim. Não foi figura de linguagem. Se o que nos diferencia dos animais é a condição de percebermos o mundo ao nosso redor e teorizarmos o que segue adiante na linha do tempo, de forma a sermos capazes de empreender e planejar a vida de formas mais seguras e produtivas, o que nos faz diferentes dos animais neste 1/4 de ano quando optamos por não pensar, não querer, não planejar ou perceber nada?
O que me perturba não é a capacidade de vivenciar o momento... é que esquecemos a habilidade multitarefa que nasce conosco e abstraímos todo o resto!
Não pensem que isso é uma visão amarga ou pessimista de alguém sem espírito natalino... Não é amargor nem desistência... afinal, se tivesse desistido de fato, não estaria aqui a bradar, todo santo dia 13/12 ACORDEM! Enquanto vivemos a letargia das festas o congresso se ocupa de ratos que devoram nosso futuro e mudam os direitos que você TINHA! ACORDEM! Enquanto vocês curtem o jingle bells, milhares de mulheres, crianças, homossexuais, negros, indígenas e deficientes tentam sobreviver sem muitas chances na Jungle Real... E se depois de tudo isso não acordaram... bem.... eu tenho complexo de Pollyana.... e estarei aqui pra gritar PAREM DE HOHOHO no ano que vem....
Feliz natal e, que nenhum de vocês precise de aposentadoria ano que vem!
13 de dez. de 2015
Hoje é 13.... 13 de dezembro. Dia da minha tradicional saudação quase natalina.... Cumprindo a tradição da data em anos anteriores, hoje é dia de falar das involuções das relações humanas e daquilo em que ainda me esforço por acreditar...
Da última manifestação quase natalina pra cá, gente chegou, gente saiu e mais do que isso... gente se esforçou pra me provar que nada disso faz sentido. No entanto, anos atrás, uma mulher com quem me relacionei, ao questionar se era mesmo uma escolha razoável quando haviam tantas outras melhores no meu caminho, ouviu de mim a seguinte resposta:
És a senhora do MEU castelo.... e se no MEU universo sou soberana, MINHA companheira só pode ser a MELHOR entre todas afinal, sendo eu o centro do meu mundo (não é egocentrismo.... todos nós temos um mundo particular...) e senhora das verdades que o fazem girar, só podes ser a melhor das escolhas...
E assim é.
Não, não sofro de narcisismo crônico. Apenas sou consciente de que não existe um único mundo que nos acolhe. Cada ser humano é um universo particular e cabe a si a determinação daquilo que pode ou não ser coerente e produtivo em seu mundo particular.
Então, meus caros, mais um natal sem hohoho... sem falsas verdades e sem projeções ilusórias. Só a certeza de que quem entrou talvez queira ficar.... que quem se foi, provavelmente devesse partir... mas que, independente de quem entra ou sai de nossas vidas, com certeza o universo não perde seu eixo nem deixa seu bailado cósmico quando alguém resolve projetar em você suas próprias frustrações e culpá-lo daquilo que não consegue ser ou fazer... as flores continuam florescendo em sua fração de universo, assim como a chuva continua caindo na fração de universo do vizinho.... mas, se o vizinho enxerga a chuva como benção ou como castigo.... bem... aí já é assunto para outro quase natal...

21 de jul. de 2015

Da drogadição emocional

Há muito tempo não escrevo aqui. Os motivos são vários. Mudanças de trabalho, de casa, de família, de tudo, me levaram a um tempo que não foi eatamente ocioso, mas de reflexão e autoanálise e, por hoje, minha passagem aqui é para dizer das coisas que mudaram e do que ainda precisa mudar. Então... Vamos lá!


O tempo inexoravelmente escoa, como foi no princípio e será até o fim.
E com a passagem do tempo, mais perceptíveis se fazem os danos deixados no rastro febril de uma relação tóxica. Sim. Sou uma sobrevivente. Veterana de uma guerra pessoal, silenciosa e oculta.
O que resta após o término é uma mistura estranha de orgulho, coragem, derrota e medo.
Difícil compreender? Eu explico.
Uma relação tóxica mina espaços antes férteis e deixa rastros de desertificação onde a realidade se mescla ao medo e deixa tudo turvo. O cone de silêncio deste furação é habitado unicamente pelo guerreiro solitário que retorna da guerra contra si mesmo e contra o domínio inimigo. Mas, se ao seu redor tudo jaz em silêncio, dentro dele coabitam sentimentos conflitantes que, por mero respeito à matemática, se anulam e mantém o guerreiro em suspensa animação. É importante ressaltar que, se o orgulho de finalmente ter saído dos portais do inferno está lá, também o sentimento de derrota por ter-se deixado abater mantém-se firme no propósito de anulá-lo. Se a coragem para seguir em frente se apresenta de armas em punho e um farnel repleto de sementes de tempos melhores está em sua bagagem, também o medo deixado pela sensação de deja vú que me assombra a cada sorriso de anuência, a cada gesto de carinho... a cada fala validante... a cada projeto sonhado em conjunto...
Se ontem o inimigo era uma presença tóxica externa, hoje o inimigo é algo que reside em mim mesma. O cone do silêncio nada mais é do que a fortificação das minhas defesas que se organizaram de forma a construir a meu redor um verdadeiro campo de força quase intransponível, que transforma cada feito, cada dito, cada olhar em uma arma pronta a disparar contra um alvo certo prestes a ruir... se você acha que este alvo é meu coração... lamento (mais por mim do que por você) mas está enganado. O alvo em questão é minha sanidade mental, posto que, atingida em cheio por uma relação tóxica assim duradoura e prolífica, passou a duvidar do tudo, do todo, do ar e do mar, de cada simples olhar, de cada gesto de pretenso amor... Que já aprendeu a não confiar mais em coisas que antes eram tão arraigadas a minha natureza e tão fortalecidas em minha autoimagem. Os anos ouvindo das desditas de ser quem sou (o que conscientemente sei ser simples forma de manipulação) me fez aprender a duvidar de minha própria capacidade, de coisas simples que sempre dominei sem dificuldade, refletindo-se hoje em minha vida profissional e pessoal de maneira aparentemente irremediável. Digo aparentemente por saber que minha natureza guerreira não se dispõe a depor armas sem luta contra essa sombra que me acompanha a cada momento, e que sei, será minha eterna oponente neste duelo que há de se encerrar no dia em que cerrar meus olhos.
Para aqueles que estão dentro de uma relação tóxica um alento: É possível sobreviver a tudo isso!
Para aqueles que estão em um relacionamento ou buscam por isso, um alerta: estejam sempre alertas. Jamais deixem de discutir ou expressar o que os fere. Jamais se permitam ser manipulados a ponto de não terem muita certeza do que é você e do que é o que se faz o desejo de outro projetado em quem você é. Por que, quanto mais inseguro, manipulador ou perverso for seu parceiro, menor ele desejará que você seja.
Existe vida após a morte? Bem... isso eu não sei. Mas, para quem viveu as dores de uma relação tóxica, o restante do tempo é vivido como se vivencia o fim de qualquer outra dependência tóxica. Em eterna vigília... Então:
SÓ POR HOJE, não vou me permitir ao sofrimento.
SÓ POR HOJE, não vou pemitir que ninguém me reduza a algo menor que eu mesma.
SÓ POR HOJE, não vou pemitir que o mal que me foi feito afaste de mim o amor que mereço receber.

SÓ POR HOJE... Serei tão feliz quanto puder ser.
23 de jun. de 2015

Sobre a insegurança e a solidão...





Faz tempo que não pego o computador para escrever... Hoje senti vontade. 

É engraçado, o tempo passa e eu sinto que estou sabendo lidar com alguns sintomas do TPB, e outros nem tanto. Como a questão da solidão, de não se bastar. É inacreditável se sentir só e ao mesmo tempo não querer fazer parte de lugar algum. Como se eu não pertencesse a ele. É um sentimento ambíguo, esse de sofrer por estar só e ao mesmo tempo querer estar. E quando estou, vem a luta contra todos os artifícios que antes eu usava pra lidar com meus sentimentos: a lâmina, remédios, bebida... As vezes eu caio. Não com relação aos cortes, esses são bem raros hoje em dia, mas principalmente a me auto-sabotar.

E uma coisa leva a outra, não é? Essa coisa da solidão. A gente não quer estar só e quando está, se culpa. Sempre a gente. Eu reajo a qualquer mudança de humor a minha volta, a qualquer resposta seca em Skype (que uso muito pra trabalhar), discussão, tenho que repetir muito pra mim mesma os mantras da terapia: "quais são as evidências que você tem para achar que você é a culpada?". Então a gente se culpa por estar deslocada, apesar de achar que deveria estar deslocada, e o pensamento gira gira, e o dia passou, o fim-de-semana passou e acabamos a passá-lo perdendo tempo sentindo pena de nós mesmos, aquela coisa do "ninguém me ama ninguém me quer porque eu não mereço" e esquece das próprias escolhas que fazemos.

As vezes acho que meu tempo acabou, sabe? Que é tarde demais, que o TPB fez tanto estrago antes, que agora que estou estabilizando não vou me encaixar nunca mais. Talvez me vitimizando ou talvez sem conseguir enxergar as possibilidades que a vida mostra. É mais fácil não lutar e se entregar a este pensamento de vez em quando. "Nunca vou ser reconhecida", "Nunca vou dar certo". Aí a gente não tenta, não mostra, não ousa, se fecha em concha por achar que não vai dar certo de qualquer forma.

Meio doente, em casa, é fácil se entregar a este sentimento de impotência em relação ao destino. Porém cabe a mim mudar esse quadro. Sair do modo "eilan" e voltar pro modo "naty". Fazer algo, nem que seja escrever no blog. Dividir este sentimento com vocês, talvez os únicos que possam realmente compreender. Dividir também que eu não pretendo pegar uma gilete e me retalhar. Eu quero acordar amanhã. Eu quero acreditar. Mesmo sem acreditar as vezes. 

Beijos a todos. Vamos continuar a fazer uma vida que valha a pena ser vivida. Dia após dia.

PS: Difícil escrever hoje em dia, com tanta gente que me conhece sabendo da fanpage, do blog, enfim... Mas vamos lá. 


14 de jan. de 2015

Trocando Experiências - Procurando ajuda


Olá Nath,

Sei que deve receber muitos emails e que talvez nem chegue a ler o meu. 

Mas ao pesquisar sobre a personagem Ray da Débora Falabella, acabei chegando ao seu blog. 

Ao ler a sua saga me identifiquei muito com você, desde a época da infância, pois eu também sofria bullying na escola por ser mais gordinha e até hoje não aceito a minha imagem, mas principalmente quando você trata sobre seu término de namoro.

Sempre fui problemática, com sentimentos de inferioridade, nunca fui de namorar, sair com garotos, pois sempre acreditava que ninguém nunca iria querer sair comigo.

Meu último relacionamento foi doloroso, marcado por indas e vindas, discussões e ciúmes. Onde eu fazia o impossível por ele, com um medo terrível de ser abandonada (aliás, a ideia de ficar sozinha me causa pavor). Quando ele terminou comigo, foi como se minha vida estivesse indo embora, não tinha mais ânimo pra sair, até porque ficava com medo de vê-lo ele e reviver todos os sentimentos, não comia e nem conseguia dormir. 

Mesmo não estando mais junto, ficava esperando ele mandar uma mensagem, ligar só para dizer que estava com saudades, ou pedindo desculpas e dizendo que eu fui especial pra ele, mas como isso não acontecia ficava sempre me culpando, repassando cada palavra dita, cada atitude, cada momento tentando ver no que eu tinha errado. E eu sempre me culpava.

Isso dói muito...um sentimento de vazio, parece que todo mundo ao seu redor está feliz e você não, se você vê alguém sorrindo sente raiva por não conseguir sorrir, e logo dá aquela vontade de chorar.

E quando precisa de um amigo, pra chorar, para ouvir suas loucuras..ninguém nunca está disponível, mando mensagens e ninguém responde, fico me culpando..achando que me acham chata, e ninguém quer ficar ao meu lado me sinto mais lixo ainda. Porque temos que ser assim? As vezes choro de raiva..por eu ser assim, por ter as emoções a flor da pele e isso dói.

Ao ler seu blog...foi apertando minha garganta e as lágrimas foram caindo, pois sei exatamente como é que você se sente. 

Nunca procurei ajuda, mas esses dias tomei coragem e mesmo com vergonha, vencendo preconceitos irei a um psiquiatra. A consulta já está marcada, espero que me ajude.

Parabéns por ser batalhadora e ser um exemplo para tantas pessoas que passam por isso também.


Querida,

Eu leio todos os e-mails que me mandam... Infelizmente eu tenho uma vida muito corrida e não tenho tempo de responder a todos, por isso de vez em quando publico alguns e escrevo as respostas, até porque sua angústia pode ser a de várias outras pessoas.

A idéia do blog foi exatamente para as pessoas verem que não estão sozinhas... Que não somos ETs e que existe esperança. Para todos.

Fico muito feliz de você ter tomado coragem e procurado ajuda. Sua vida vai começar a melhorar e tenho certeza que vai começar a valer a pena ser vivida.

E obrigada pelas palavras de carinho!!

Beijos!

Nathy
10 de jan. de 2015

Apaixonado por uma border - trocando experiências



Oi. Eu não tenho TPB, mas estou apaixonado por uma menina border. Eu a conheci na faculdade, mas ela trancou a matrícula. Por sorte ela faz um curso junto comigo, assim eu pude manter contato.
Depois de muito tempo conversando, principalmente por facebook, já que às vezes ela se ausenta do curso, eu a convidei pra sair. Ela aceitou e até se mostrou bastante entusiasmada. Fomos a um sarau onde ela expôs seus desenhos(ela é uma ótima artista). Nos divertimos, conversamos, tava tudo bem até que ela disse que estava se sentindo mal e pediu pra ir embora. Na verdade ela ficou frustrada porque os desenhos dela não tiveram muito reconhecimento. Não fiquei surpreendido, porque já sabia que ela é borderline, e como faço Psicologia sei que a frustração afeta muito o border. Fomos embora e no dia seguinte eu tentei animá-la, elogiei a arte dela e perguntei se a gente podia sair de novo, mas ela simplesmente não responde mais minhas mensagens. 

Agora não sei o que fazer, devo insistir ou devo deixá-la quieta? Não entendo porque ela passou a me desprezar literalmente de um dia para o outro. Por favor, será que você pode me ajudar a entender o que está acontecendo? É normal mulheres com TPB agirem assim?
Ficarei muito grato se você puder me ajudar.

Obrigado pela atenção.


Oi!

Primeiramente, mulheres são sempre mulheres, com ou sem TPB. E temos razões que a própria razão desconfia... Ela pode não ter respondido por mil razões diferentes: pode ter medo da sua aproximação, pode ter querido te afastar pra ver se você voltava, pode ter "enjoado" - já aconteceu comigo - enfim... Mas cuidado ao vê-la como border simplesmente. Antes de tudo ela é uma pessoa, que pode ter suas próprias razões, que talvez não tenham nada a ver com o TPB. 

Como você me mandou este e-mail já faz um tempo, imagino que esta situação já tenha tido um desfecho. Espero que tenha sido bom!

Beijos,

Nathy


6 de jan. de 2015

Trocando experiências - idéias de suicídio.


Oi Natália, tenho 19 anos e descobri q tenho borderline há 1 ano quando depois de muitas tentativas de suicídio fui internada. Eu não fazia a mínima idéia do que era essa doença, foi aí que depois de pesquisas na net encontrei o seu blog, que desde então tem me ajudado muitíssimo. 

Minha vida nunca foi fácil, mas ela tem sido horrível de uns meses pra cá porque agora estou completamente só, só mesmo! Minha mãe tem o maior preconceito com transtorno mental, definitivamente eu não sou a filha que ela esperava eu me tornar, me cobra muito e eu me sinto muito mal, e pra piorar meu irmão mais velho tem piorado nas piadinhas de mal gosto desde que eu tive alta, me coloca no chão o tempo todo, e meu pai é um canalha, eu o odeio. 

Não tenho apoio da família, muito menos dos amigos que por medo de perder acabei perdendo de verdade. Estou tentando tomar coragem pra me jogar de uma ponte aqui perto de casa (a unica coisa que ainda não tentei) os meus últimos  cortes nos pulsos já estão cicatrizando e a minha vontade de morrer não passa.

Querida,

Tem certas coisas que é díficil até dizer algo... Eu me lembro quando estava em crise, bem mal, toda vez que me diziam "vai passar" eu ficava com raiva... Porque não parece que vai passar. O que posso te dizer é que se a gente focar na terapia, na medicação, deixar o tempo passar, essa vontade de morrer vai ficando menos frequente... A lâmina fica menos atraente. É um dia atrás do outro, uma vitória atrás da outra. 

Na sua idade os sintomas são intensos e é complicado lidar mesmo... Tente ler o blog, livros, tente fazer coisas que te tirem a atenção das idéias suicidas, ver filmes... Manter a mente ocupada. Eu assistia seriados o dia inteiro para não pensar muito... E assim fui sobrevivendo a um dia após o outro, até reunir forças.

Espero que você esteja melhor...

Beijos, 

Nathy


2 de jan. de 2015

A vida começa todos os dias.




(texto da colaboradora mascotinha Isabella. O blog dela é Borderline.Excessos)

Hoje, me questionei muito sobre o que eu iria falar para vocês, e depois de tantas perguntas e dúvidas, resolvi falar sobre o que tenho aprendido depois de ser diagnosticada Borderline. Vejo o quanto as pessoas sofrem por não saberem o que é esse transtorno de personalidade. E o que não acaba ajudando em nada é quem não nos entende. Perdi as contas de quantas vezes fiquei chateada e me sentindo frustrada pelo fato de que não somos todos iguais. Enfrentei muitas dificuldades na escola, não sou uma pessoa nem um pouco fácil de lidar, e com os confrontos que encontramos no nosso cotidiano muitas vezes não sabemos como lidar com eles! 

Reparo muito na falta de informação e preconceitos que sofremos por algo que não sabemos ao certo o que está acontecendo com a gente. Não estamos tentando chamar atenção não é? Temos um transtorno e precisamos lidar com eles da mesma forma em que somos fortes para levantar e encarar a vida todos ou dias. Eu carrego um pequeno lembrete no corpo que diz "Love Yourself", e eu olho todos os dias e lembro que acima de tudo devo me amar, antes de amar alguém. Não vejo como um defeito ou problema a nossa forma de amar demais e sentir demais, a única coisa que precisamos é entender a si próprio. Precisamos ser lembradas pelas nossas vitórias, conquistas e pelo o que somos! Não vamos deixar que isso nos abale, e sabe por quê? Porque somos únicos, e não há nada no mundo que possa nos fazer mal se você também não se machucar. Vejo o quanto eu cresci e amadureci depois desses dois anos de diagnóstico. Quantas batalhas vencidas e quantas vezes eu tive que pedir ajuda, porque ser orgulhosa nesse momento não vai ajudar. 

O tratamento deve ser levado a sério, assim, podemos ter controle e levar a vida e não ela nos levar. Tente pensar em como você quer se ver, pensou? Eu quero ver todos(as) vocês cada vez melhor, vamos pensar mais antes de tomar atitudes que não vão nos trazer benefícios. Não é algo fácil, mas a gente consegue, e uma única certeza que eu tenho, é que tudo vai passar, hoje não vai ser como amanhã e assim em diante. Então levante da cama com a mesma certeza que eu tenho, existem frustrações, dias ruins, nos decepcionamos mas também temos nossos dias bons, sorrimos, e temos a chance de começar tudo novamente no dia seguinte. Quando eu ganhei alta do internamento uma pessoa muito importante me disse uma frase que eu coloco no meu despertador para ver sempre que acordo, "A vida começa todos os dias" (Érico Verissimo)

E ai, como vai começar seu dia amanhã?
Quero ver todos(as) bem, Beijão.
29 de dez. de 2014

Até 20% dos adolescentes e adultos jovens já experimentaram a automutilação




Associação Americana de Psiquiatria estuda considerar o comportamento como transtorno psiquiátrico

Carolina Cotta - Estado de Minas

Publicação:10/12/2014 





"...eu estava me apunhalando, realmente me atacando com a chave de fenda e aquela dor física que eu estava causando foi melhor que qualquer droga que o hospital tinha. Estava fazendo todo o resto ir embora.A dor, a dor física, estava fluindo pelas minhas veias como heroína, e eu estava entorpecida, imune a todo o resto. Eu não pude sentir nada além de dor, e eu sabia que eu tinha achado um jeito de me salvar" - Trecho do livro Willow, de Julia Hoban


“Não lembro da primeira vez que me cortei, mas eu sentia uma angústia muito grande e não sabia como lidar com aquilo. Em algum momento, comecei a me arranhar e depois a me cortar. Nunca foi algo para chamar atenção, eu escondia. Também não sentia dor, mas aliviava meu sofrimento.” As lembranças de adolescência da bióloga Carolina Costa, hoje com 25 anos, ilustram a triste realidade das pessoas que se automutilam para enfrentar sentimentos com os quais não conseguem mais lidar. Não existem estudos epidemiológicos no Brasil sobre a incidência de autolesão, mas pesquisas feitas no exterior mostram que a prática vem crescendo nos últimos anos. Dados mundiais, considerando apenas adolescentes e adultos jovens, mostram que de 17% a 20% já tiveram, em algum momento da vida, tal comportamento.

Segundo a psiquiatra da infância e da adolescência Jackeline Giusti, responsável pelo ambulatório de adolescente e automutilação do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), na quinta edição do Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais da Associação Americana de Psiquiatria, o DSM-5, a automutilação é classificada como transtorno psiquiátrico com necessidade de estudos futuros. “Há uma tendência em considerar esse comportamento como um transtorno psiquiátrico por si só, e não mais como comportamento relacionado a outros problemas”, adianta a especialista. Já na Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10), ela é tida como transtorno do controle do impulso não específico, ou como um dos sintomas de transtornos de personalidade como o borderline.

O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), classificado pelo psicanalista Adolph Stern como uma patologia entre a neurose e a psicose que gera uma disfunção no metabolismo cerebral, desintegrando o ego e gerando um sentimento de perda desesperador, é o caso da personagem de Débora Falabella na minissérie Dupla identidade, da Globo. Na trama, a produtora de moda Ray arranha os braços até sangrar muito quando o namorado Edu, o psicopata serial killer vivido por Bruno Gagliasso, some.

Por outro lado, segundo Giusti, há a tendência de desvincular a automutilação de transtornos de personalidade, como o borderline. “Transtorno de personalidade não tem muito tratamento, seu controle não é algo direto. Tem muito paciente que se automutila e não é borderline. Primeiro, porque adolescente nao tem transtorno de personalidade, porque sua personalidade ainda não está formada. Tem, no máximo, traços”, explica.

A automutilação geralmente começa na adolescência e é mais comum nessa faixa etária, mas pode se prolongar até a vida adulta. Um estudo australiano acompanhou, por oito anos, pessoas que começaram a se automutilar ainda jovens e revelou que sintomas depressivos e suporte familiar fraco seriam fatores determinantes dessa persistência do comportamento. O auto-flagelo na adolescência é tema do recém-lançado livro Willow (Editora LeYa), da norte-americana Julia Hoban. Voltado para o público infanto-juvenil, o romance conta a história da personagem que dá nome ao livro, que começa a se cortar para se livrar do sofrimento e da culpa de ter causado a morte dos pais, que faleceram em um acidente de carro em que ela dirigia.


O PANO DE FUNDO 

A pessoa que se automutila, com frequência, refere-se a uma tensão anterior. Segundo a psiquiatra Jackeline Giusti, o ato de se machucar, se morder, se bater – o mais comum é se cortar e se queimar – dá um alívio a quem o pratica. Isso porque o corte, ou qualquer outra lesão no corpo, libera endorfina, mesmo hormônio que dá sensação de bem estar após o exercício aeróbico, por exemplo. Alguns estudos sugerem que quem se automutila liberaria, em função do estresse que antecede o ato, uma quantidade maior do hormônio que outras pessoas. Outra hipótese é a de que uma pré-disposição genética poderia estar relacionada a uma maior liberação de endorfina, o que provocaria uma sensação de bem-estar e não de dor.

Carolina Costa começou a se cortar aos 12 anos. Naquela época, em função da profissão da mãe, se mudava várias vezes de cidade ou de escola, o que, para ela, foi determinante para se tornar retraída e tímida. “As mudanças trouxeram muitos problemas. Não criava raiz, não criava vínculos, não tinha muitos amigos para compartilhar questões mais pessoais”, lembra. Discussões na família ou mesmo uma cena vista na televisão que a entristeciam começaram a ser gatilhos para o ato de se arranhar e depois experimentar cortes mais elaborados, com tesoura, compasso e lapiseira, até passar para a faca. “Não tinha muito padrão. Algumas vezes, os cortes eram mais profundos; em outras, mais superficiais. Dependia da angústia que eu sentia. A maioria das vezes, fazia cortes rápidos e repetitivos no mesmo lugar. E eu não sentia dor”, lembra.

A preocupação com a ansiedade de Carolina fez a mãe levá-la a um médico ortomolecular, que pediu para ficar sozinho com a adolescente, na época com 14 anos. “Aquilo me deu confiança para contar da angústia que eu sentia e com a qual não sabia lidar.” O acolhimento do especialista foi marcante para a paciente, que se lembra de ele explicar que pessoas depressivas como ela, e com transtorno de ansiedade, seriam mais sensíveis e intolerantes a injustiças, que não conseguiam ser superficiais. Segundo Giusti, é comum que a automutilação esteja mesmo associada a depressão e ansiedade, daí a terapia ser essencial na abordagem do problema. Carolina parou de se cortar com 17 anos, mas se tratou até os 19 anos. Diminuiu a frequência da automutilação desde que começou a fazer a terapia e a se medicar.

Segundo Fátima Vasconcellos, diretora médica do Hospital Geral da Santa Casa do Rio de Janeiro, o tratamento é com terapia cognitivo-comportamental e medicamentos antidepressivos, como inibidores seletivos de recaptação de serotonina. “É fundamental que as pessoas reconheçam que isso é uma doença e, principalmente, que é tratável”, alerta. Para a especialista, os pais devem ficar atentos para levar os filhos a um especialista se desconfiarem de uma automutilação. Também é preciso observar as comunidades das redes sociais que dão apoio a esses adolescentes, mas também trocam experiências de como se mutilar. “Infelizmente, a internet é uma extraordinária ferramenta tanto para o bem quanto para o mal. Sempre tem pessoas estimulando comportamentos autodestrutivos, inclusive orientado como fazê-lo de forma mais eficiente”, chama a atenção Fátima.

A forma como esse problema é abordado pelos adultos é muito importante. Educadores que desconfiarem do comportamento em alguma criança ou adolescente devem procurar os responsáveis. Segundo Giusti, é a oportunidade de saber se a família está enfrentando algum problema em casa que possa estar desencadeando o comportamento. Mas o mais importante é não reforçar o estigma de que o paciente faz aquilo para chamar a atenção, porque geralmente ele faz escondido, mesmo que em um segundo momento possa usar aquilo para manipular os pais. “Se o pais descobrirem que seu filho está se cortando, a regra é básica: olhe para ele como se ele estivesse chorando e pergunte o motivo do sofrimento. O problema não é o corte. Ninguém feliz se corta. É preciso descobrir o sentimento que está por trás daquilo”, alerta a psiquiatra.


26 de dez. de 2014

Sobre Dupla Identidade.




Um dia eu estava conversando no WhatsApp e aparece a mensagem: "Glória Perez deixou uma mensagem pra você". E foi assim que comecei a minha história com o seriado Dupla Identidade. No começo eu não acreditava que a coisa iria tão longe. Sabe quando é muito bom pra ser verdade? 

A cada e-mail trocado com a Débora, com a Glória, a cada pergunta respondida, foi crescendo a minha ansiedade, mas insistia em manter os pés no chão. Se eu voasse muito alto, podia acabar caindo feio, na minha cabeça. E não estava ajudando pensando em aparecer na TV, na internet, enfim. Eu só queria ajudar. Só a visibilidade para o transtorno que o seriado traria seria suficiente para que eu fosse recompensada.

A partir de julho, tudo aconteceu rápido: apareci no GSHOW, Fátima Bernardes, enfim... Graças à Glória eu hoje posso mostrar minha cara, meu nome, minha luta. Eu posso tatuar o símbolo do blog no braço, eu posso dizer que tenho o Transtorno de Personalidade Borderline e mesmo assim trabalho, ganho meu dinheiro, pago minhas contas. Que faço terapia sim, que tomo remédio sim, e que ninguém pode usar isso contra mim. Posso lutar contra o estigma com minha própria voz.

E a Ray foi nossa voz. Cada vez que eu a via ali, chorando, se cortando, confusa, angustiada, enraivecida, eu me via, exposta nas minhas fraquezas e qualidades, como tantos outros que com certeza sentiam a mesma coisa. Ela foi nossa primeira porta para que o Brasil soubesse que não somos simplesmente dramáticas e chamadoras (es) de atenção. Amei e sofri cada minuto. 

Por que estou contando tudo isso aqui? Porque o que aconteceu comigo é prova de que a vida reserva coisas para nós, e não fazemos idéia do que seja. Quando eu criei este blog eu estava num lugar muito escuro. Eu me cortava diariamente. Pensava em morrer sempre. Não saia de casa. E esse mesmo blog me salvou, quando a maioria daqueles que eu conhecia me virou as costas. Se alguém me dissesse que menos de dois anos após criar este espaço eu estaria na Globo, eu ia rir muito, afinal de contas, não achava sequer que estaria viva.

Foi no ajudar pessoas que me ajudei, me levantei e por isso luto, dia após dia. O blog transformou minha dor em troféu. Eu não estou "curada", caio, levanto, e são as mensagens de estímulo de vocês que me dão forças para continuar.

Que tudo que aconteceu comigo sirva de mais um exemplo que há esperança. Que as vezes fazemos coisas e pegamos caminhos os quais nem imaginamos, mas que o retorno acontece, a vida surpreende. E que, apesar de muitas vezes não acreditarmos, ela vale a pena ser vivida sim.


19 de dez. de 2014

Sobre o “ser” borderline.




Amamos tanto que nos perdemos. Perdemos a nós mesmas pela ausência de uma identidade, por essa desregulação emocional que embaça o juízo. Eu estou reaprendendo a ser quem sou, pouco a pouco. As músicas que gosto, a roupa que visto – um dia blazer, outro tênis no pé – de acordo com meu humor.

Acho que amamos o amor – vício de apaixonar, pelo marido, pela mãe, pai, melhores amigos - vício de sentir muito. O pouco, o blasé, não satisfaz. Só por um período. Enjoa, meu cabelo enjoa, o corpo enjoa, o sentimento enjoa e a sensibilidade aflora.

Todavia tem jeito de tirar este óculos que nos faz enxergar com “olhos de caleidoscópio” (citando John Lennon) – a vida que vale a pena ser vivida é real. Não a normal, aquele “normal” que te fizeram crer ser o certo. O seu “normal”. Sensíveis, coloridos, apaixonantes, seremos sempre, com ou sem diagnóstico. Aliás, somos bem mais do que um. Ao ultrapassá-lo, aprendemos que ser borderline não nos define – ao nos dar conta de quem realmente somos. Ser borderline me ensinou a ser eu.

Por isso, lute. Vá a terapia, cuide de si, acredite mesmo sem acreditar, há luz, Ame-se. Descubra-se. Tente todos os dias, caia, levante, mas não desista. Não se humilhe, se baste. Nem que seja por hoje. Acredite que você é mais que um “ser” borderline e seja, simplesmente.





1 de dez. de 2014

Princesa Borderline - depoimento (e mais uma colaboradora!)




(texto de Isabella, nossa nova colaboradora)

Nada melhor do que eu mesma para relatar essas idas e vindas que ocorrem no cotidiano complexo dessa jovem digamos que "perturbada" pelas próprias lembranças e frustrações.

Digamos que ela segue uma mistura de fada encantada com a bruxa da branca de neve - não que isso seja bom, claro que não é nada bom - mas para ela era uma virtude que poucos infelizes conseguem ter. Mas ela conseguia driblar tudo e todos com seu jeito e suas manias, mas, a única coisa que ela realmente queria era atenção - e ela tinha - era algo diferente, como de costume não era algo comum, ou no fundo era, mas não para ela.

Quando era uma doce criança já enfrentava problemas com as pessoas, ai que vem a pergunta - por causa dela ou dos outros? - Ainda não sei, ninguém sabe, ou pelo menos não quer realmente saber. Ela não conseguia se achar maligna, afinal, como alguém consegue ser maligna com 6 anos? Nos mais aguardados filmes de terror isso sempre foi possível, mas não é uma coisa ocasionalmente pensada, apesar de que os pais sempre aguardam que seus filhos sejam perfeitos... Acontece, que nem toda criança quando lida com os primeiros confrontos faz tudo da maneira mais indicada.

Apesar das idas a psicóloga ou os encontros fervorosos de família, Isa ainda não via nada de tão diferente no seu jeito de ser. Criada pelos pais até os 13 anos, e depois foi morar com sua mãe em um condomínio no centro da cidade, sem conviver com o pai e sua família por quatro anos, o que podemos dizer? Muita coisa muda em quatro anos não é?

A convivência com sua mãe era muito boa, ela era sua melhor amiga, e a jovem sentia muito orgulho da mãe, tanto pela pessoa que era e sem dúvidas a determinação da mãe. Depois da morte de sua avó, tempo difícil, as duas resolveram ajudar uma a outra. Depois desse tempo o pai de Isa ao rever a filha, encontrou uma moça tatuada, que fumava e bebia, e ainda por cima ficava com meninas. Esse primeiro contato não foi a melhor coisa do mundo, mas depois que ele levou a filha em uma clínica psiquiátrica a 1500 km de distância, deve ter levado o um baita susto e resolveu fazer o papel de pai uma vez por semana.

A adolescência não é o melhor período da vida, mas é com ele em que descobrimos quem somos, e foi aí em que começa o tormento e o sangue. A jovem começou a ir em um psiquiatra a pedido da mãe, ao ver que sua filha precisava de ajuda, um tratamento foi iniciado e ela ia ao médico de 15 em 15 dias...
Um tratamento longo, até chegarem a conclusão depois de dois anos que ela tinha um transtorno de personalidade, chamado Borderline. Não era nada fácil para ela entender o que era isso, mas com várias pesquisas na internet e com a ajuda de sua mãe as coisas começaram a se encaixar, com duas tentativas de suicídio nada agradáveis, dias sofridos, automutilação, noites sem dormir, crises, ela resolveu ir se internar. Como ela mesmo dizia "todos deveriam passar por essa experiência", torno das palavras dela as minhas. 

Não é a vida que uma garota de dezessete anos queria, mas ela tentava tirar as coisas boas do momento em que estava, depois de ganhar alta ela começou a encarar os fatos de uma maneira mas coerente, por mais que acabava se frustrando uma vez ou outra. Depois disso, ela recebeu um tiro pelas costas da pessoa que ela mais amava, ela parou, e pensou o que ela deveria fazer naquele momento. Ela ergueu a sua cabeça e foi em diante. 
E tudo ficou feliz para sempre? Não, ela passava por provas todos os dias de sua vida, por um tempo resolveu ficar afastada de tudo, ficar na sua cama, ver seu filme, curtir sua gata Amy e aproveitar o que ela tinha para aproveitar nos dias atuais. 

Ela não era nenhuma princesa de contos de fada, era uma guerreira, graças ao apoio e carinho de sua mãe que acreditou nela até quando a própria Isabella deixou de acreditar.
20 de nov. de 2014

Como a neurociência explica a automutilação (parte 4)



(essa é uma reportagem longa que saiu agora em outubro sobre a automutilação, que estou traduzindo aos poucos e publicando - pra ler do início, coisa que eu sugiro que façam, segue: parte 1 , parte 2, parte 3)


Todos estes resultados significavam que a definição de auto-lesão tinha de ser redefinida. Em 2006, um pequeno grupo de cientistas da primeira reunião da Sociedade Internacional para o Estudo da Automutilação (ISSS - International Society for the Study of Self-Injury) fez exatamente isso. "Nós discutimos a definição durante o jantar e drinks em uma noite," Heath disse. "Significou que o pobre garçom teve de ouvir a conversa de jantar mais perturbadora de sua vida. Nós nos perguntávamos coisas como: "Então, se a remoção de seu próprio globo ocular é auto-mutilação, o que dizer de beber água sanitária?" '

A definição que eles desenvolveram ainda vale: a auto-lesão não suicida é a destruição auto-infligida e deliberada de tecido corporal sem intenção suicida, nem para fins socialmente aceitos, tais como piercings ou tatuagens. Os estudos epidemiológicos descobriram que, enquanto cerca de um terço de todos os adolescentes tinham deliberadamente se machucado pelo menos uma vez, menos de um em cada 10 adolescentes e adultos jovens repetidamente o fizeram. Além disso, embora muitas cultura pop falam da auto-lesão como uma coisa "de mulher", os estudos descobriram que os homens e as mulheres se machucavam em proporções mais ou menos iguais.

O grupo é heterogêneo. Muitos lutam com a depressão, ansiedade e distúrbios alimentares. Alguns satisfazem os critérios para transtorno de personalidade borderline. No entanto, outros têm distúrbios do espectro do autismo ou, como eu, transtornos de ansiedade associados; esse último grupo passa mais tempo pensando sobre automutilação antes de se envolver nela, e tem o maior risco de suicídio.

Na verdade, o corte e outras formas de auto-mutilação corporal estão entre os preditores mais fortes de futuro comportamento suicida, diz Stephen Lewis, psicólogo da Universidade de Guelph, em Ontário. Lewis e outros acreditam que a auto-mutilação sinaliza a incapacidade de lidar com as emoções à mão. A fuga temporária que a auto-lesão fornece poderia ser um precursor para a fuga mais permanente de suicídio.

Independentemente das razões em que o suicídio e auto-mutilação estão tão fortemente ligados, os pesquisadores ainda se esforçaram para entender por que as pessoas repetidamente (e deliberadamente) se machucam. Matthew Nock, agora um professor de psicologia em Harvard, tentou descobrir isso enquanto ele era um estudante de doutorado na Universidade de Yale sob a tutela do psicólogo Mitch Prinstein (que agora está na Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill). Ao mergulhar na literatura sobre outros comportamentos repetitivos e pedindo às pessoas que se auto feriam  para manter diários, Nock e Prinstein desenvolveram o Modelo de Fator Quatro em 2004.

O modelo funciona através de reforço positivo e negativo, Prinstein me disse. O reforço positivo é quando fazendo algo nos dá uma recompensa; reforço negativo é a remoção de algo que nos faz sentir mal. A auto-lesão oferece reforço positivo e negativo, tanto por razões intrapessoais (alterando emoções) e por razões interpessoais (alterando nossas relações com os outros). Alguém que está tão anestesiada pela depressão que ela não sente nada pode cortar se para sentir algo, qualquer coisa, mesmo que seja a dor - um exemplo de reforço positivo, por razões intrapessoais. Outros podem estar ansiosos ou enfurecidos e se machucam para diminuir esses sentimentos, o que é um caso de reforço negativo intrapessoal. Outros ainda podem ferir-se para demonstrar o quão angustiados estão e para forçar uma reação de entes queridos (reforço positivo interpessoal) ou para que deixem de fazer alguma coisa (reforço negativo interpessoal). As razões de uma pessoa para a auto-lesão podem ser diferentes a cada vez, e podem abranger uma variedade de motivações, mas algumas são mais comuns do que outras.

"De longe, a razão mais comum que as pessoas deram para se mutilarem foi que era para parar de se sentir tão mal" Prinstein disse.

Eu poderia me identificar com isso. Emoções intensas e negativas as quais eu não sabia como lidar sempre precediam um episódio de auto lesão. Às vezes, o objetivo era se sentir melhor. Outras vezes, o desejo de diminuir o volume das emoções como raiva ou ansiedade era tingido pela vontade de me punir. Eu merecia sofrer, eu merecia sentir dor e ter cicatrizes para que o mundo soubesse que eu era uma pessoa horrível. Nem todos, no entanto, relataram sentir dor ao se ferir; uma porção substancial de pessoas que se auto ferem dizem que suas ações não resultam em dor imediata.

Tudo isso levou Joseph Franklin, que recebeu seu PhD, e atualmente é um pós-doutor no laboratório de Nock, a perguntar se as diferenças na percepção da dor poderiam contribuir para a automutilação. Ele trouxe 25 pessoas que regularmente se auto lesavam para o laboratório e pediu-lhes para colocar as mãos na água gelada, uma forma comum de medir a dor.

Comparados com 47 controles, os indivíduos que se auto-mutilavam foram capazes de deixar suas mãos na água gelada por mais tempo, indicando uma percepção da dor diminuída. Franklin também descobriu que aqueles com maiores dificuldades na regulação e resposta às emoções também foram capazes de suportar a dor por mais tempo. Era como se a sua dor emocional os distraísse da dor física.

Um estudo relacionado por Nock e seus colegas de Harvard mostrou que a auto-crítica também aumentava a quantidade de tempo em que os indivíduos que se auto feriam poderiam suportar a dor. Franklin acredita que as pessoas que são excessivamente autocríticas pode forçar-se, para suportar a dor por mais tempo. Esses dois fatores - regulação da emoção e auto-crítica - parecem ser independentes, e aparecendo juntos provavelmente se aumentaria o risco de auto-lesão ainda mais.

Este achado bateu comigo. Alguns dos meus piores períodos de corte ocorreram após lutas pessoais na pós-graduação, sendo a dificuldade em completar a minha tese, uma nota ruim em um exame, ou apenas sensação geral de não ser bom o suficiente. Eu revolvia no ódio por mim mesmo. Especialistas provavelmente diriam que o meu sentimento de que eu merecia a dor, ou que de alguma forma a adquiria através do meu comportamento, tornava-a mais fácil de tolerar.

continua...

(tradução livre/edição da reportagem: "Why self-harm?")
29 de out. de 2014

Como a Neurociência explica a automutilação. (parte 3)




(essa é uma reportagem longa que saiu agora em outubro sobre a automutilação, que estou traduzindo aos poucos e publicando - pra ler do início, coisa que eu sugiro que façam, segue: parte 1 , parte 2)

Lader primeiro começou a estudar e tratar a auto-lesão no início de 1980, depois que seu colega Karen Conterio começou a ver sinais de mais e mais mulheres a auto-flagelando em seu trabalho ambulatorial para abuso de substâncias. Nenhuma destas mulheres mostraram sinais de distúrbios psicóticos ou de personalidade, nem estavam se cortando ou queimando-se com intenção de suicídio. Conterio pensou que estava vendo apenas a ponta do iceberg, e por isso ela colocou um anúncio no jornal Chicago Tribune em 1984, pedindo para ouvir aqueles que se machucavam regularmente sem a intenção de cometer suicídio. Foi uma enxurrada de cartas, e de repente as pessoas começaram a falar sobre auto-lesão. O seu surgimento como um fenômeno da cultura pop levou a uma aparição no programa de TV Phil Donahue em 1985 com várias mulheres que se auto machucavam. 

Em 1986, Lader e Conterio fundaram o que se tornaria a SAFE Alternatives(Self-Abuse Finally Ends - o auto-abuso finalmente termina ) , a primeira instalação residencial  do mundo especificamente para tratar as mulheres que se automutilavam, localizada nos arredores de St Louis. Psicólogos acreditavam que Lader e Conterio estavam vendo um subconjunto raro da população, e que as psiquês dessas mulheres estavam tão irremediavelmente marcadas quanto seus corpos. Lader não estava convencido. "Eram pessoas incríveis, brilhantes, inteligentes jovens que tinham tanta promessa, só que foram consumidas por pensamentos de se machucarem", Lader me disse. 

Embora outros duvidassem, Lader também acreditava que automutilação era muito mais comum do que se pensava. A prova finalmente chegou em 2002 a partir de Nancy Heath, uma psicóloga da Universidade McGill, no Canadá, e sua aluna de doutorado, Shana Ross. Em uma escola local, Ross estava conversando regularmente com os adolescentes, que expressavam preocupação com a sua própria prática de automutilação ou de um amigo. Quando ela quis tornar este o foco de sua dissertação, Heath tentou convencê-la do contrário. 

"Eu disse a ela que ela nunca iria encontrar número suficiente de pessoas que se automutilavam para obter os dados para uma tese," Heath disse. "Eu finalmente concordei em deixá-la tentar." 

Os resultados preliminares de Ross indicaram que mais de um em cada cinco jovens praticaram a auto-lesão pelo menos uma vez. Isto chocou tanto Heath e o resto da comissão de dissertação que eles achavam que os alunos do ensino médio tinha entendido mal a pergunta. Então, Ross voltou para a prancheta, fazendo entrevistas com mais profundidade com os que haviam relatado a auto-lesão e descartou todos os resultados com uma uma leve incoerência. Os percentuais caíram, mas Ross ainda ficou com um atordoante e elevado número de adolescentes que relataram a auto-mutilação: 13,9 por cento. 

Não muito tempo depois que o estudo de Ross e Heath apareceu no Journal of Youth and Adolescence (Jornal da Juventude e Adolescência), Janis Whitlock, uma psicóloga da Universidade de Cornell, publicou um estudo de auto-agressão entre 5.000 estudantes de várias universidades da Ivy League. Seus resultados mostraram  números igualmente elevados de jovens que tinham se machucado: 20 por cento das mulheres e 14 por cento dos homens disseram que tinham  se auto-ferido pelo menos uma vez. 

"Eu estava chocada. Todo mundo estava achando taxas muito altas ", me disse Whitlock. "A questão parecia vir do nada." 

O que foi inovador nesses dois estudos não foram apenas os altos índices para a auto-lesão, mas que estes eram populações da comunidade, e não de pessoas internadas por problemas psiquiátricos. Eram as pessoas que se sentavam do seu lado na sala de aula e ficavam na fila do supermercado.

continua...

(tradução livre/edição da reportagem: "Why self-harm?")


26 de out. de 2014

Como a Neurociência explica a automutilação. (parte 2)




(perdeu a primeira parte desta reportagem? Vá aqui.)

O sangue é uma força poderosa. Falamos de laços de sangue e terra que foi consagrada pelo sangue. Nós derramamos sangue para curar doenças e para apaziguar os deuses. Disputas de longa data entre grupos de pessoas tornam-se feudos de sangue. Sangue- e as lesões sofridas para obtê-lo - tem sido por muito tempo um símbolo de guerra e religião. Cristãos bebem vinho durante a Santa Ceia, que representa o sangue de Cristo, que foi derramado para redimir nossos pecados. Sacerdotes maias abriram suas próprias veias para um sacrifício de sangue para suas divindades. 

A auto-mutilação é tão antiga quanto. O historiador Heródoto escreve sobre o primeiro rei Cleómenes de Esparta, que enlouqueceu e foi colocado no tronco, no quinto século a.C: 
"Enquanto ele estava lá, percebeu que todos os seus guardas o deixaram, exceto um. Ele pediu a este homem, que era um servo, para emprestar-lhe a faca. No início, o companheiro recusou, mas Cleómenes, por ameaças de que ele faria com ele quando ele recuperasse a liberdade, o assustou tanto que ele finalmente consentiu. Assim que a faca estava em suas mãos, Cleomenes começou a mutilar-se a partir de suas canelas. Ele cortou sua carne em tiras, trabalhando para cima em direção a suas coxas, quadris e lados até que alcançou sua barriga, que ele cortou em picadinhos. 

Os primeiros relatos clínicos de que hoje seria reconhecido como auto-lesão apareceram no final de 1800, em Anomalias e Curiosidades da Medicina (1896) pelos médicos americanos George Gould e Walter Pyle. Eles escrevem sobre "meninas de agulha", as jovens mulheres que repetidamente feriam-se através da inserção de agulhas de costura e pinos em sua pele, desta forma cortando-se. Eles resumem o caso de uma mulher de 30 anos de idade, de Nova York assim: 
Em 25 de setembro ela cortou o pulso esquerdo e mão direita; em três semanas ela se mostrou novamente desanimada porque não quiseram lhe dar ópio, e novamente cortou os braços abaixo dos cotovelos, cortando a pele e fáscia, machucando completamente os músculos em todas as direções. Seis semanas depois, ela repetiu a façanha em cima das cicatrizes recentemente curadas [marcas de corte] ... Cinco semanas após a convalescença, durante os quais sua conduta foi exemplar, ela voltou a cortar os braços no mesmo lugar. Em abril do ano seguinte, por motivos banais, ela novamente repetiu a mutilação, mas desta vez deixando pedaços de vidro nas feridas. Seis meses depois, ela infligiu-se uma ferida de sete centímetros de comprimento, na qual ela inseriu 30 peças de vidro, sete lascas longas e cinco pregos de sapato. Em junho de 1877, ela cortou-se pela última vez. Os artigos a seguir foram retiradas de seus braços e preservados: 94 pedaços de vidro, 34 lascas, duas tachas, cinco pregos de sapato, um pin e uma agulha, além de outras coisas que se perderam - fazendo no total cerca de 150 artigos. 

Gould e Pyle classificaram esta automutilação ritualística como uma forma de histeria, e as mulheres que se faziam como enganadoras e em busca de atenção. De fato, até o início de 2000, a maior parte da literatura clínica classificava a auto-lesão com transtornos psiquiátricos mais graves, como psicose e transtorno de personalidade borderline, um estado de caos interno e instabilidade, especialmente quando relacionamentos estavam envolvidos. 

"Algumas mulheres que se machucavam eram hospitalizados cada vez que se cortavam, o que poderia ser centenas de vezes ao longo de sua vida. Elas essencialmente viviam nos hospitais ", disse Wendy Lader, o diretor clínico de um programa de auto-abuso EUA e um dos primeiros psicólogos a tratar a automutilação. "As pessoas achavam que eu era louco, quando eu disse que muitas dessas pessoas poderiam ser tratadas ambulatorialmente, porque eles não eram necessariamente suicidas."

continua...

(tradução livre e edição desta reportagem: "Why Self-harm?")

17 de out. de 2014

Como a Neurociência explica a automutilação (parte 1)




Isso é o que eu me lembro sobre a primeira vez que eu me cortei: eu estava com muita raiva. Como escritora, queria poder vir com algo mais literário, tais como: "Os cortes forneceram uma rota através da minha pele para que as emoções escapassem." Ou talvez: "Eu o fiz para traduzir a dor emocional em dor física." ou ainda, talvez: "Eu gravei meu sofrimento em minha pele, tumulto em larga escala para todo o mundo ver".

Estas são, de certa forma, verdade. Mas isso não é o que eu estava pensando na primeira vez que peguei uma tesoura e cortei as minhas coxas. Principalmente, eu estava muito p. da vida. 

Eu tinha discutido com minha mãe sobre algo tão banal que já há muito desapareceu da memória. E, em um acesso de fúria adolescente, eu voei pro meu quarto e bati a porta. Cega de raiva, eu peguei uma tesoura e a virei na minha mão. A próxima coisa que eu tenho consciência é que eu estava olhando para pequenas pérolas de sangue na minha perna. A névoa de raiva tinha desaparecido. 

Eu rapidamente cuidei do ferimento, um tanto envergonhada. A tesoura eram velha e as lâminas estavam meio cegas, então eu tinha feito mínimo dano físico . Naquela época ou agora eu não poderia explicar o que tinha acontecido comigo. Eu jurei para nunca mais fazer isso de novo. Em duas semanas, eu tinha quebrado essa jura. 

Ao longo dos anos, eu tentei explicar a automutilação aos meus terapeutas, meus pais, meus amigos e mais recentemente, ao meu marido. Todo mundo tem a mesma pergunta melancólica: 'por que?' Principalmente, eu apenas dou de ombros e murmuro: 'Não sei.' Não digo a eles que eu estou fazendo a mesma pergunta de mim mesma. Eu não gosto do processo, nem eu gosto das cicatrizes. São vergonhosas e constrangedoras. Eu queria desesperadamente parar, mas uma coisa sempre aparecia na minha cabeça: depois de cortar, eu me sentia melhor. 

Apesar de eu ter escrito extensivamente sobre a minha história de saúde mental - eu tenho uma folha psiquiátrica que tem o tamanho do meu braço - raramente menciono automutilação. Depressão, ansiedade, anorexia, até mesmo tentativas de suicídio - todos estes parecem ser infinitamente mais explicáveis do que a atração recorrente da lâmina. Eu não estou sozinha em minha vergonha ou minhas lutas. Um estudo de 2006 na revista Pediatrics estima que cerca de um em cada cinco estudantes universitários deliberadamente se feriram pelo menos uma vez. Cerca de seis por cento dos jovens adultos vão se machucar repetidamente. Embora casos de morte causada diretamente pela automutilação são relativamente raros, mesmo a auto-lesão ocasional aumenta drasticamente o risco de tentativas de suicídio e suicídios consumados. 

O porquê de tantos de nós continuarmos a apertar o botão de auto-destruição ainda não está claro, mas uma nova era de estudos em psicologia e neurociência oferecem uma imagem mais rica do motivo pelo qual, para alguns de nós, sentir-se mal mal significa sentir-se bem.

(tradução livre/edição do artigo "Why Self-Harm?" - em 13/10/2014)


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* Essa é uma reportagem super atual (saiu esta semana) e interessante sobre automutilação. Só que ele é beem longo, então vou traduzir e publicar em partes, também pra fazer todo mundo ler, porque sei que tem alguns preguiçosos que não lêem textos grandes. Quem souber ler em inglês, como em todos os meus posts, o link está acima.



13 de out. de 2014

Sobre a vida que é digna de ser vivida.


É engraçado. Hoje recebi um e-mail me perguntando qual era o primeiro sinal indicando que estávamos melhorando. Logicamente respondi que não há um padrão, cada ser humano é único. Porém fiquei pensando em mim e no que melhorei. Não sei. Não penso em morrer com frequência, a vontade de se cortar é bem menos frequente, o choro vem mais espaçado. Trabalho. Lido com pessoas, organizo e resolvo a vida de muita gente, com suas expectativas. 

Fico perto da vida que falo tantas vezes, aquela que "vale a pena ser vivida", só que na verdade ainda não sei o que significa isso de verdade. Sofro ainda, a lembrança de tudo que passei vem vívida muitas vezes. Uma pessoa comentou a cena da Ray, a que ela sofre pelo sumiço do psicopata Edu em Dupla Identidade, dizendo que a atriz tinha sido bem dramática. Eu só sorri e respondi que ela havia sido simplesmente fiel. A dor corrói, entra na alma, que se rasga em pedaços. Eu sei o que é isso, apesar das pessoas as vezes se esquecerem disso. Como eu levo uma vida dando conselhos, advogando pela causa do transtorno, levantando a bandeira e sendo elogiada pela minha coragem, a parte que eu também sou border passa batido. Eu cheguei longe, eu sei. Meu blog me levou a colocar a cara a tapa na TV, mas minha escolha me fez perder este canal de desabafo. Muita gente que conheço entra aqui, então não posso mais me dar ao luxo de usar este veículo como diário pessoal. 

Não que eu me arrependa, não é isso. Eu fiz uma escolha, quando decidi ir a público e defender o que eu acredito. Eu levo a vida pensando em como vou agir, reagir, no que falar para você que está me lendo agora, que se corta todo dia, que está sem esperanças, que acha que não existe luz. Existe sim, mas não enxergá-la de vez em quando faz parte do processo de recuperação, no meu ponto de vista. Eu não enxergo as vezes. Deixo a vida me levar um dia após o outro, esperando que talvez eu acorde uma manhã e tudo deixe de ser tão intenso, como que por encanto. Há dias em que tudo que eu quero é ficar em casa, dormindo, comendo, ouvindo música. Todavia eu fiz a escolha mais difícil: melhorar. E isso demanda um esforço grande, um conhecimento pessoal, um controle que cansa, cansa muito... Tem dias que eu queria voltar a ser a Eilan. Era mais sofrido, mas menos cansativo. Eu reagia simplesmente, acabava com nada e culpava a vida por isso.

Esse texto não faz nenhum sentido, eu acho. Estava com saudade de escrever aqui, com minhas palavras, dividir a minha dor não para que eu a cultive, mas para mostrar que, apesar dela, eu vou acordar amanhã, cuidar dos gatos, vestir a roupa, colocar uma maquiagem e vou trabalhar. Que a vida que é digna de ser vivida talvez seja essa mesmo, onde apesar de querer sumir num dia, a gente levanta e vai viver no outro.

Pra terminar a nostalgia, uma música borderline pra coroar este post meio melancólico. Estava ouvindo no carro e achei bem adequada...

Simple Plan - Welcome to my Life


4 de out. de 2014

Homens também podem ter o Transtorno de Personalidade Borderline.




O Transtorno de Personalidade Borderline é geralmente considerado como um transtorno "de mulher". Mas os homens podem ser borders, também. 

Therapy Soup dá as boas vindas a Dr. Robert Fischer. Dr. Fischer é o Diretor Executivo do Optimum Performance Institute, em Woodland Hills, CA. O Roanne Program  é especializado em tratar jovens adultos com o Transtorno de Personalidade Borderline ou com alguns traços dele.

Quando as pessoas pensam em uma pessoa com um diagnóstico de transtorno de personalidade borderline, eles pensam de ser doença de uma mulher. No entanto, os homens também podem ter o TPB. Quantos homens border e qual a percentagem de todos os doentes com o TPB são homens? 

Anos atrás, os médicos relutaram em fazer o diagnóstico de DBP, em parte porque os tratamentos disponíveis não estavam produzindo resultados favoráveis e, portanto, não havia muita esperança para a recuperação total. 

Com o advento da Terapia Dialética  Comportamental e outras modalidades terapêuticas, é claro que podemos fazer muito para ajudar as pessoas com o Borderline para melhorar a qualidade de suas vidas. Fizemos grandes progressos no de-estigmatizar o diagnóstico de TPB nas mulheres. 

Finalmente, estamos a dar o próximo passo e fazer o mesmo para os homens. 

Pesquisas anteriores mostraram que os homens eram cerca de 25% dos casos de TPB. Hoje sabemos que é um notável 50/50. 

Como o TPB em homens difere do TPB em mulheres? 

A literatura científica indica que as mulheres com o TPB são mais propensas a distúrbios alimentares, de humor, ansiedade e TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático), enquanto os homens demonstram paranóia, tendências passivas / agressivas, o narcisismo, e transtornos de personalidade anti-social. Homens com TPB parecem ser mais propensos a abusar dos cônjuges em vez de direcionar a raiva a si mesmos. Eles demonstram personalidades caracterizadas por temperamentos explosivos, abuso de substâncias e uma necessidade de buscar experiências emocionantes. 

Embora isso possa ser apoiado pelos dados, eu acredito que dá uma impressão muito pejorativa dos homens. Na verdade, não há diferença entre mulheres e homens em termos de seus níveis de estresse psicológico. Ambos são seres humanos que sofrem tremenda ansiedade. Tanto os homens como as mulheres estão sujeitas a sua genética e exposição social  possivelmente abusiva , como todos têm a necessidade de serem validados. 

Certamente, no Programa Roanne, vemos homens com TPB que não se apresentam transtorno de personalidade anti-social. Eles não são paranóicos. Eles são muito diferentes do que esta rotulagem estereotipada. 

Como olhamos para alguém em dificuldade determina, em parte, como nós os tratamos. 

Há sempre alguma verdade as generalizações sobre comportamento, mas cada pessoa é única. É importante cautela ao colocar uma pessoa em caixas calculadas estatisticamente. Ninguém merece ser estereotipado. 

São as causas ou antecedentes que diferem para o TPB em homens x mulheres? 

As causas específicas ou antecedentes podem ser diferentes. Mas homens e mulheres com o TPB compartilham uma dificuldade subjacente na gestão de stress e ansiedade. Podem haver causas neurológicas ou genéticas e podem haver diferenças nas formas de lidar com o sentimento de invalidação. Isso leva ao border a se distrair e encontrar dificuldades para completar seus objetivos. Não ser capaz disso faz causa problemas com a auto-estima. Este ciclo de sentimentos e comportamentos pode fazer difícil de estabelecer relações consistentes e carinho com os outros. 

Tanto os homens como as mulheres sofrem igualmente. 

Às vezes vemos homens com algumas características de quem sofre de TPB, mas eles têm outros marcadores do transtorno de personalidade também. Por exemplo, o transtorno anti-social de personalidade e o TPB às vezes parecem se sobrepor. O Transtorno de Personalidade Narcisista, em alguns casos, também. Você pode comentar sobre isso? 

Certamente existem muitos homens com TPB que também têm personalidades anti-sociais e narcisistas. 

Para este grupo a ajuda deve ser entregue de uma forma abrangente, abordando os comportamentos de agressividade e anti-sociais, proporcionando contenção, bem como compaixão e compreensão. Pode ser extremamente difícil prestar cuidados significativos e adequados para os homens (ou mulheres) que têm comportamentos anti-sociais. 

No entanto, os jovens com os quais temos trabalhado geralmente não parecem anti-sociais. Isso me leva a crer que existem muitos homens que poderiam se beneficiar e que são merecedores de cuidado, mas podem estar relutantes em apresentar-se para a ajuda, porque eles sentem que não se encaixam no diagnóstico atual do TPB. 

Os jovens que vemos para o tratamento para o TPB claramente demonstram os processos de pensamento subjacentes, ou seja, estilos de pensamento em preto ou branco rígidos e perfeccionismo. Eles acham difícil se comprometer, o que torna sua capacidade de estabelecer relacionamentos íntimos mais difícil. Vendo o mundo dessa maneira muito em preto ou branco também faz com que seja difícil para eles conseguir dominar os altos e baixos que vêm com a realização de metas complexas porque os baixos são experimentados como catastróficos e avassaladores. 

É claro que essa maneira de ver o mundo é comum. Todos nós fazemos isso às vezes. Mas quando ela se torna a forma predominante de lidar com o estresse e a ansiedade, torna-se problemática, especialmente em pessoas que são propensas a ter oscilações emocionais intensas. 

A associação de narcisismo e comportamentos anti-sociais com DBP, creio eu, pode ser em parte um artefato do grupo de pessoas em quem os estudos foram baseados. Um sistema de diagnóstico que é baseado em observações comportamentais estatisticamente válidas mas que não trata da vida interior, produz um sistema que pode ter verificabilidade, mas, muitas vezes tem pouca semelhança com o indivíduo sentado em um consultório. 

Esse é um ponto muito importante, Dr. Fischer. Temos que entender que a imagem que temos pode não ser completa, ou mesmo verdadeira, e que cada pessoa em tratamento é um indivíduo. 

O quadro fica ainda mais confuso quando se observa como muitos outros diagnósticos, tais como depressão, ansiedade, bipolaridade e TDAe TDAH são também uma parte da realidade em homens e mulheres com diagnóstico de TPB. 

Nosso sistema de diagnóstico, creio eu, simplesmente apresenta diretrizes que podem ser úteis. 

(tradução livre do artigo: "Men can have Borderline Personality Disorder, too")


Robert F. Fischer, MD, é diretor executivo e co-fundador do Instituto Optimum Performance (OPI), uma terapêutica credenciada do JCAHO , programa residencial e educacional para o jovem adulto, em Woodland Hills, CA.  Programas Roanne da OPI é especializado no tratamento de jovens adultos com Transtorno da Personalidade Borderline ou traços. Dr. Fischer é professor clínico assistente de psiquiatria, David Geffen da UCLA School of Medicine, Departamento de Psiconeuroimunologia, Instituto de Pesquisa consciência atenta. Ele tem ajudado os jovens adultos encontrar um significado em suas vidas por quase 35 anos.