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26 de dez. de 2014

Sobre Dupla Identidade.




Um dia eu estava conversando no WhatsApp e aparece a mensagem: "Glória Perez deixou uma mensagem pra você". E foi assim que comecei a minha história com o seriado Dupla Identidade. No começo eu não acreditava que a coisa iria tão longe. Sabe quando é muito bom pra ser verdade? 

A cada e-mail trocado com a Débora, com a Glória, a cada pergunta respondida, foi crescendo a minha ansiedade, mas insistia em manter os pés no chão. Se eu voasse muito alto, podia acabar caindo feio, na minha cabeça. E não estava ajudando pensando em aparecer na TV, na internet, enfim. Eu só queria ajudar. Só a visibilidade para o transtorno que o seriado traria seria suficiente para que eu fosse recompensada.

A partir de julho, tudo aconteceu rápido: apareci no GSHOW, Fátima Bernardes, enfim... Graças à Glória eu hoje posso mostrar minha cara, meu nome, minha luta. Eu posso tatuar o símbolo do blog no braço, eu posso dizer que tenho o Transtorno de Personalidade Borderline e mesmo assim trabalho, ganho meu dinheiro, pago minhas contas. Que faço terapia sim, que tomo remédio sim, e que ninguém pode usar isso contra mim. Posso lutar contra o estigma com minha própria voz.

E a Ray foi nossa voz. Cada vez que eu a via ali, chorando, se cortando, confusa, angustiada, enraivecida, eu me via, exposta nas minhas fraquezas e qualidades, como tantos outros que com certeza sentiam a mesma coisa. Ela foi nossa primeira porta para que o Brasil soubesse que não somos simplesmente dramáticas e chamadoras (es) de atenção. Amei e sofri cada minuto. 

Por que estou contando tudo isso aqui? Porque o que aconteceu comigo é prova de que a vida reserva coisas para nós, e não fazemos idéia do que seja. Quando eu criei este blog eu estava num lugar muito escuro. Eu me cortava diariamente. Pensava em morrer sempre. Não saia de casa. E esse mesmo blog me salvou, quando a maioria daqueles que eu conhecia me virou as costas. Se alguém me dissesse que menos de dois anos após criar este espaço eu estaria na Globo, eu ia rir muito, afinal de contas, não achava sequer que estaria viva.

Foi no ajudar pessoas que me ajudei, me levantei e por isso luto, dia após dia. O blog transformou minha dor em troféu. Eu não estou "curada", caio, levanto, e são as mensagens de estímulo de vocês que me dão forças para continuar.

Que tudo que aconteceu comigo sirva de mais um exemplo que há esperança. Que as vezes fazemos coisas e pegamos caminhos os quais nem imaginamos, mas que o retorno acontece, a vida surpreende. E que, apesar de muitas vezes não acreditarmos, ela vale a pena ser vivida sim.