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13 de jul de 2014

Quando o diagnóstico vem depois dos 30. (depoimento)




Querida Eilan!


Teus vídeos têm me ajudado bastante. Queria te agradecer pela coragem de se expor. A tua coragem ajuda, certamente, muitos de nós, limítrofes. 

Tenho 39 anos e sofro do transtorno desde sempre, mas - principalmente - dos 19 em diante, quando as coisas foram ficando piores. Aos 20, passei um ano me cortando. Nunca mais fiz isso porque passei a ter muita vergonha, mas passei a abusar de medicamentos. Tentei suicídio muitas vezes. A dor é indescritível, você bem sabe.

Só fui diagnosticada há uma semana. Até então, passava por sérios julgamentos da minha família como sendo uma pessoa birrenta, raivosa, mimada e que queria chamar atenção. Isso me deixava extremamente pior. Com o tempo, minha mãe foi percebendo que eu "tinha alguma coisa", mas pensava que era depressão, embora não achasse que tinha muitas características. Pensava isso pelos meus momentos depressivos e destrutivos. Mas sempre dizia que não fazia sentido porque eu oscilava demais. Também não me achava bipolar porque eu não tive jamais crises maníacas, de euforia. Entretanto, nunca havia recebido diagnóstico correto.

No momento, estou tomando medicação e fazendo análise (há dois anos). Depois de ver teus vídeos, passarei a fazer ioga também e voltarei à academia.
Passei por um fim de relacionamento com uma pessoa que, embora fosse um doce em muitos momentos, me julgava muito e me acusava de não saber me relacionar porque meus relacionamentos não era duradouros como os dele. Isso foi me destruindo e acabei não suportando e tentando suicídio por conta das discussões. Ele nem sonha que tenho o diagnóstico e nem que tentei me matar. Eu terminei a relação e estou me recuperando. Agora meus pais estão me ajudando e meu pai, percebo, sente-se culpado por nunca ter percebido o que eu tinha antes. Ele comentou hoje, com as mãos no rosto: "Meu Deus, eu sou um cara que lê tanto, que estuda tanto, como nunca pesquisei o que a minha filha tinha?! Tantos anos achando que era frescura! Como não pude descobrir o que você tinha?!" Quase morri de pena. Ele não tem culpa. Ninguém tem. 

Ainda estou um pouco em choque com o diagnóstico, para o qual fecho em 100% dos critérios. Dá um certo alívio, mas desanima, por ser algo que não tem cura. Sei que terei muitos sofrimentos ainda. Não há com quem falar sobre isso por aqui. O único amigo com quem comentei, me abandonou. Nunca mais me atendeu, nem entrou em contato. Foi bem triste. Depois disso, nunca mais comentei com ninguém. Só meus pais sabem.

Morro de medo de entrar em uma nova relação. Tenho medo de ser maltratada, de estragar tudo, de não ter critérios de escolha dessa pessoa. Medo de me machucar, de me destruir se não der certo novamente.

Não sou do tipo agressiva. Embora já tenha acontecido isso sim. Hoje em dia, sou mais implosiva e sofro demais. Me aniquilo. Não vejo futuro, me sinto perdida, doi o tempo todo. Aquela coisa... A única coisa que consegue me tirar da cama quando estou muito mal, são minhas 4 cadelas que tirei da rua. Elas precisam de mim, dependem de mim, sofrem e se alegram por mim. São meus anjos. Já deixei de tentar suicídio outras vezes por causa delas, pois sei que não teria quem cuidasse delas. É a única coisa que me mantém um pouco.

Tenho desenvolvido uma certa fobia social, sinto-me desadaptada ao mundo e muito sozinha. Todos os meus amigos casaram, constituíram suas famílias, meu irmão, que é mais novo, também. E eu aqui. Sou uma mulher bonita, inteligente, meiga, carinhosa. Reconheço isso, mas não sei pra que me serve. Não me vejo capaz de viver sem alguém, em contrapartida, nunca tenho ninguém. Os homens reconhecem minhas qualidades, mas não querem compromisso comigo. E seguem me elogiando. Minha sensibilidade me mata. Na verdade, na minha última tentativa de suicídio, eu sinto que morri. Estou feito zumbi agora. Só durmo com medicação, só como se minha mãe vem a minha casa me trazer comida. Emagreci horrores. Envelheci muito nos últimos dias, é notável e triste. Estou muito isolada e sem forças para nada.
Vou tentar seguir a prática da ioga, como vc sugeriu. Também quero melhorar.
Te agradeço demais e gostaria de poder te ajudar também.
Um grande beijo.
Com carinho, 

Laura


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* Resolvi colocar este depoimento porque a maioria dos e-mails que eu recebo é de gente mais jovem - menos de 25 anos - e acho que foi o primeiro que recebi de alguém mais velho que eu (tenho 35).

Sempre comento a sorte que os mais novos tem de um diagnóstico cedo - quanto sofrimento eles podem evitar, se começarem o tratamento logo de uma vez. Só os Deuses sabem o que eu poderia  ter evitado, caso alguém tivesse cogitado o TPB pra mim. 

O que importa é que você está tentando, Laura. É difícil, eu sei. Você logo vai conseguir se levantar, eu acredito!


11 comentários:

  1. Cada história, menina! A gente sente mesmo vontade de amenizar essa angústia... Bem mais que angústia, né?
    Fico feliz por você estar conseguindo nortear um pouco essas pessoas. Orgulhosa de ti.

    Beijo!

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  2. Oii Laura. Tenho 27 anos, e não fui diagnostica ( ainda) com TPB, porém me encaixo nos critérios. Inicialmente, diagnosticada com ciclotimia ( tipo mais leve de TBH). Me identifiquei com seu relato de vida. Tenho um relacionamento com meu namorado e sou dependente afetiva dele, embora ele me humilhe, não consigo viver sem ele. Aliás, não quero viver sem ele. Porém, sofro muito. Conto com a amizade de uma pessoa, me ajuda e me apóia, e fora essa pessoa, não tenho mais amigos. Não tenho vida social. Tomo medicação antidepressivo fluoxetina e, estabilizador de humor, a carbamazepina. Quase perdia o emprego por conta de crises depressivas e etc, e meu namorado diz que "tudo isso é frescura". Ele se afasta de mim quando estou nas crises depressivas. Queria tanto ser feliz com alguém, e que esse alguém fosse ele.

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  3. Olá Eilan! Sou a Liz e adorei seu blogger muito esclarecedor! Me identifiquei com vários relatos aqui....sou Bipolar, tenho uma vida bem complicada, tomo vários medicamentos, faço terapia e procurando um pouco mais a respeito do problema encontrei vc!!! Estou bastante sensibilizada com alguns post e pedindo a Deus por todos nós, pois pude ver que, assim como eu, tem muitas pessoas precisando de ajuda....Estarei sempre por aqui! Bjs carinhosos!

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  4. Cada história que eu leio aqui, acho lindo o trabalho que você faz, divulgando informações, isso é muito bom para acabar com os preconceitos.
    http://diaadiadadepressao.blogspot.com.br

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  5. Eilan, cadê você? Sentindo falta de ti por aqui! Apareeçaaa.

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  6. sou rapaz borderline... penso que mereço um tratamento especial por haverem poucos como eu ou por poucos decidirem se abrir... enviei e-mail para voc_e migalhasmcdm@gmail.com ... dê uma ajuda para mim

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  7. Me identifiquei com o texto. Nunca obtive um diagnóstico de border mas sinto que sou assim desde que nasci... Pessoas já desistiram de mim e também desisti de todos... Fiz um blog para desabafar e sempre que penso em me auto destruir eu escrevo. Abraços a todos que sofrem dessa terrível dor na alma. http://metamorfoseados.wordpress.com/

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  8. Sou Astróloga e estou fazendo um curso de Psicanálise para poder ajudar melhor meus clientes, gostaria muito de poder entender melhor o TPB. Acredito que os momentos de crise profunda e desesperadora podem ser acionados por algum trânsito no mapa Astral. Gostaria de conhecer os mapas de algumas pessoas para quem sabe ajudar nessa orientação para que realmente haja uma melhor qualidade de vida.

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  9. Gente, minha intenção não é expor o mapa de ninguém publicamente, mas ajuda-los a entender quais são os disparadores das crises, quem quiser pode me escrever um e-mail ruth.sasaki@gmailcom, sua identidade será mantida em sigilo. Mas vamos procurar entender mais um pouco essa doença que é nova e que de difícil diagnóstico. Abraços

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  10. pelo menos vc tem apoio dos seus pais.

    borderline assusta mesmo porque somos muito intenso pra maioria das pessoas, nos expressamos (com uma naturalidade pra gente) que pros outros é muito e pode chegar a ser inconveniente, se sentem incomodados com nossos excessos: de raivas, de carinho... eu passei dos limites lá em casa, não suporto os abusos dos meus pais, cheguei a bater na minha mãe e agora fui expulsa de casa, sem emprego...morando na casa do meu namorado (que é a casa da minha sogra, que também não se dá bem com a mãe) estou disposta a levar isto a sério e não votar atrás, pois a situação em casa estar insustentável. apoio familiar é essencial, infelizmente no meu caso nunca tive, eles foram o meu problema e nunca quiseram assumir a culpa e fazer diferente, sempre procurei ajuda fora de casa. pelo menos vc tem suporte, onde ficar, pessoas com vinculos afetivos fortes que te ajudam, já fugi de casa 2x morando em casa de amigos pq com meus pais não davam. com relação aos homens, espere que uma hora vc acha, antes de arranjar este meu namorado passei 8 anos solteira, virgem, nem procurava mais uma relação fixa pra que isto acontecesse, já fiquei com muitos idiotas que me tratavam como lixo, qs fui estuprada 2x e tive loucos que ficavam no meu pé me perseguindo e eu ficava com medo de risco de vida... enfim, não imaginava que iria encontrar um cara pra me relacionar sério, mas com muita terapia e tratamento abri meus horizontes para os caras certos, talvez eu estava num ciclo vicioso de caras errados, de relacionamentos instaveis como os do meus pais e aí nem chegava ao segundo encontro de tão sem noção eram os caras. continua na terapia e com os remedios, logo eles fazem efeitos e as coisas vão dar certos

    meu blog se quiser saber um pouco da minha história:

    http://normalidadequestionavel.blogspot.com.br/

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