Amigos:

31 de dez de 2013

2013: Sobre fins e começos.




Eu fui ao inferno. Conheci a dor, o escuro, a lâmina. Descobri que a maioria dos meus amigos não eram meus amigos e que quase tudo que eu acreditava ser verdade era fruto de algo chamado Transtorno de Personalidade Borderline.

Perdi tudo que tinha em questão de meses. Criei um blog. Conheci amigos que levarei para toda a vida. Achei que não estaria viva para ver 2014 e cá estou. Escrevendo este texto para vocês. Sou especial? O que me faz ter conseguido enquanto muitos sucumbiram ao fundo do poço? Eu não sei e me pergunto isso todos os dias. E talvez por isso continue.

Acreditei que não conseguiria e consegui. Rápido. Desespero a cada lampejo de crise. De repente estava trabalhando, de repente estava tentando pegar nas mãos as rédeas de minha vida. Muitos me disseram que eu estava bem. Não sei o que é isso e talvez quando eu descubra, eu pare de ter medo. Ou não.

Mas uma coisa eu sei: o blog foi meu caminho de volta à luz no fim do túnel. A cada comentário, a cada resposta, a cada visualização, a cada agradecimento, vocês me impulsionaram para frente. Cada vez que eu pensava em me cortar eu lembrava de alguém que havia me dito que tinha parado pelo que leu aqui, ou por um vídeo que viu, e isso me dava forças pra conseguir seguir. Cada vez que eu acreditava que eu não tinha forças, vocês me disseram que eu tinha, cada vez que eu quis acabar com tudo vocês me disseram que eu conseguiria passar por mais uma. E eu consegui: estou viva. Estou tentando.

2014 prometo estar presente, prometo colocar aqui no blog mais notícias, mais ajuda, mais. Sempre mais.

Então, neste ano de inferno, eu tenho a agradecer a cada um que entrou aqui, a cada palavra de carinho, a cada agradecimento, a cada energia boa enviada pela tela de centenas de computadores. 

Vocês salvaram minha vida e nada do que eu faça aqui será grande o suficiente para retribuir isso.

Só algo a dizer a cada um:

OBRIGADA!




28 de dez de 2013

Lidando com os sintomas do TPB: Resistindo à vontade de se cortar.




Um dos sintomas associados com o Transtorno de Personalidade Borderline é a necessidade da auto-mutilação. Ela pode se manifestar de várias maneiras, incluindo se queimar com cigarros, arrancar fios do cabelo ou bater a cabeça na parede. Muitas vezes esta compulsão se manifesta quando queremos nos cortar.

Se você tem o TPB, pode já saber o que é essa necessidade de se cortar. Para aqueles que não, se cortar é o tipo de auto-mutilação no qual alguém usa um objeto afiado (uma lâmina, uma faca ou tesouras) para rasgar a pele.

Cortar-se é diferente de tentar se matar, pois quem o faz não está tentando tirar sua vida, mas anestesiar-se de algum stress causado por um gatilho. Obviamente que, apesar desta prática não estar associada ao suicídio, ela é muito perigosa devido à perda de sangue ou risco de infecção. Pode ser também emocionalmente perigosa, já que muitos reportaram terem se tornado viciados em se cortar.

Como resistir à vontade de se cortar:

Resistir pode ser um grande desafio: Aqui vão algumas dicas do que você pode fazer da próxima vez que tiver vontade de se cortar:

- Esteja consciente de quais situações te levam a querer se cortar. O cutting (expressão em inglês para o ato de querer se cortar) é como se fosse uma solução "rápida" e impulsiva para um sentimento negativo. Identifique estas situações e as evite ou tente aprender outras formas de lidar com elas.

- Saiba o que te acalma. Tenha uma lista, seja na cabeça ou mesmo escrita na sua bolsa, de outras formas de lidar com seus gatilhos. Ligue para um amigo. Escute uma música. Vá correr. Tome um banho. Respire.

- Tente se lembrar que este sentimento passa. Quando estamos imersos no momento, durante o gatilho, há uma escuridão avassaladora difícil de suportar. 
Tente lembrar agora de quando isso aconteceu antes, e os momentos que se seguiram, quando a escuridão se dissipou. Veja se você consegue chegar lá sem se machucar.

- Entenda que o progresso leva tempo. Tenha objetivos realistas e não espere que seu comportamento mude do dia pra noite. O progresso, acredite ou não, pode ser amedrontador e você pode começar a se identificar com este sentimento negativo. Isso junto com os outros sintomas como senso de si mesmo instável ou medo de abandono, pode ser realmente aterrorizante seguir para um período de vida mais saudável.

- Busque ajuda! Nunca é demais dizer que a terapia, os remédios e os exercícios são essenciais para nossa busca pela estabilidade. Infelizmente não conseguimos sozinhos.

(tradução livre/edição do artigo: "Managing BPD Symptoms: Resisting the Urge to Cut")


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* Assusta. Estar menos instável assusta pra caralho. Eu fico esperando uma crise a cada momento. As lâminas estão lá, na minha cabeceira, caso eu falhe. Não consigo me livrar delas. Mas faz tempo que não me corto... Uns dois meses, talvez. Parei de contar. Acho que deveria.
Cansa, claro que cansa. Cansa se policiar sempre, cansa se obrigar a enfrentar o problema ao invés de rasgar a carne. E houveram dias que cheguei a chorar de vontade. Mas vale a pena, vale o esforço, vale.
Estou longe de estar estável, mas sinto que meu esforço está rendendo frutos! :)


26 de dez de 2013

Seja a mudança.





Solidariedade não faz bem apenas para quem recebe ajuda, mas também para quem a pratica. E isso, agora, está comprovado cientificamente: Um estudo realizado nos EUA por um neurocientista brasileiro revela que a boa ação (doar, ser voluntário ou visitar hospitais e instituições carentes) ativa uma região cerebral que proporciona uma sensação de prazer e bem-estar comparada aos atos de comer chocolate, ganhar dinheiro e fazer sexo! Além de ter a oportunidade de ajudar pessoas que precisam, praticar o altruísmo alivia tensões, reduz o estresse e pode até aumentar a espectativa de vida. Segundo o neurocientista Jorge Moll Neto, autor da pesquisa, "se os egoístas não tinham um bom motivo para fazer algo em prol dos outros, agora têm!" (fonte: Bolsa de Mulher

Neste ano que passou, eu fui do céu ao inferno. Conheci o fundo do poço, as desilusões. Fui apresentada à lâmina, aos amigos de ocasião. Entendi que muitas vezes somos interessantes nos sorrisos e que nossas dores se resumem à "mimimis".

Voltei. Venci, com a ajuda de muitos. Mas muito mais a minha ajuda. Porque que eu tenho que me bastar. E por que estou falando tudo isso? Pois esquecemos muitas vezes que para manter a roda girando, precisamos dar também, a fim de receber.

Eu tinha um trabalho com animais de rua. Resgato gatos. Ajudava financeiramente com o que podia, e as vezes com o que não podia. Organizei um bazar, comecei a construção de um gatil que foi parada pela minha queda vertiginosa para a escuridão. Conheço ainda muitos que o fazem, que se doam, saem no meio da noite para socorrer um animal ferido, fazem rifas e campanhas... São grãos de areia nesse mundo enorme de gente que não sabe o que veio fazer nesse planeta.

A gente reclama. Diz que não tem tempo. Se vale do borderline, da ansiedade, da depressão... De qualquer coisa. Mas continua reclamando que o mundo não é um lugar bom pra se viver, da pobreza, desigualdade, blablabla. Ok. E o que VOCÊ está fazendo para mudar isso?

Não consegue sair de casa? Eu também não conseguia, mas criei um blog que acabou por ajudar centenas de pessoas que não sabiam do TPB. Existem doações online, bazares online. Apadrinhe uma criança, um idoso, um cachorro, um gato... Tire um domingo pra visitar uma creche. Ou um sábado pra um mutirão de banho em um abrigo de animais. Doe as roupas que não usa mais, os brinquedos que seus filhos não brincam mais. Entregue cestas básicas, compre ração para animais de abrigos, as possibilidades são INFINITAS!

Eu tenho essa ferramenta linda que é o blog e a fanpage, que tem centenas de visitantes por dia. Faz parte de minha resolução para esse ano de 2014: voltarei a ser fiel a minha causa, que é a dos animais e agora à passar pra frente a informação e ajudar pessoas que, como eu, sofrem com o TPB. Podem se preparar: vou fazer a minha lojinha virtual vendendo canecas e camisas com temas de animais, vender rifas, apoiar campanhas... Com relação ao TPB, bem, meu objetivo é me organizar para postar mais, interagir mais. Quem sabe dar palestras. Quem sabe...?

Então pra você que tá me lendo agora eu dou esta sugestão: escolha sua causa, seja ela qual for. Você não imagina o prazer que é sentir que está fazendo algo para mudar o mundo.
24 de dez de 2013

Cinco dicas para passar pelas festas de fim de ano





Festas de fim de ano: Que época maravilhosa!! A menos que passar um tempo com sua família seja um dos seus gatilhos.

Se reuniões familiares são gatilhos para seus sintomas borderline de ansiedade, depressão ou impulsividade, ou até mesmo acorda sua compulsão alimentar ou desejos de se se cortar, é bom você estar preparado.

Aqui vão cinco dicas para passar pelas festas de fim de ano quando você tem TPB:

1. Tenha um plano. Esteja certo de quais são seus gatilhos, então faça o máximo para evitá-los. Se você sabe que seu irmão vai dizer algo que vai te chatear, espere ele sentar e então sente do outro lado da mesa. Se sabe que o segundo copo de vinho vai te fazer falar demais, troque o vinho pela cidra. Imagine antes possíveis situações complicadas e pense como sair delas.

2. Esteja consciente de si mesmo. Pratique Atenção Plena. Faça um check-in de si mesmo durante o evento. Esteja consciente das sensações no seu corpo. Está respirando? Está tenso na região dos ombros? Faça um esforço para se retirar de situações emocionalmente carregadas, seja fisicamente ou simplesmente se dando um momento para respirar ou ficar quieto consigo mesmo. Você não pode controlar a reação e o comportamento dos outros, mas pode estar no controle do seu. 

3. Lembre-se de quem você é. Você não tem mais 13 anos, apesar de ser fácil cair nesse pensamento quando está rodeado de parentes e pessoas que te acompanharam durante muitas mudanças na sua vida. Ao entrar no ambiente que remete seu passado, sua infância, pare um momento para relembrar quem você é AGORA. Faça um estoque de coisas positivas que você sabe serem verdade sobre você. Seja seu melhor amigo durante o evento.

4. Lembre-se de quem eles são. Não esqueça de que seus familiares provavelmente não estão tentando ser vilões. Seu irmão tem as motivações dele para dizer as coisas que ele diz. Talvez ele esteja estressado e esteja se comportando assim porque é a única maneira que ele conhece de tentar parecer uma pessoa melhor. Talvez ele não tenha se preparado para esta ocasião como você. É libertador perceber que nem tudo é pessoal contra você.

5. Recuperação. Se possível, planeje um dia para se recuperar depois do evento. Mesmo para aqueles que não sofrem dos sintomas do Transtorno de Personalidade Borderline, estar com a família pode ser esgotante e emocionalmente desgastante. Se você tirar este momento para se colocar nos trilhos de novo, as consequências podem ser minimizadas.
(tradução livre/edição do artigo: "5 Tips on Navigating the Holiday Season (and Family) with BPD")

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* E então. Eu vou usar todas estas dicas e mais algumas. Vou passar o Natal com meu pai e minha mãe, somente. Divorciados desde que eu tinha 12 anos. Minha mãe irritada dando patada em todo mundo, meu pai no seu mundinho particular onde ele acha que borderline é um incômodo passageiro. 
Mas passarei por isso. Porque as vitórias que tive este ano são maiores do que uma noite qualquer...

Feliz Natal pra vocês, leitores, que me dão todos os dias este presente que é seu carinho!!!
23 de dez de 2013

Natal sem hohoho



Todos os anos as pessoas começam com a mesma ladainha torta de HOHOHO... Mas... nem todas as pessoas são iguais nem precisam ser iguais... Cada ano é uma composição perfeita de 365 dias... 365 dias de altos, baixos, gordos e magros... não, não.... dias de altos e baixos, mais ou menos constantes... dias de se reinventar e se reconstruir... dia de levantar e de cair... dias de lembrar de manter o foco no mundo real, as vezes tão duro e sombrio, e (pq não?) dias de vestir nossos super uniformes de super heróis cotidianos e vencermos nossos dragões e vilões e, principalmente, nossos medos e indefinições... Entre esses 365 dias, existem aqueles de calar, aqueles de gritar, aqueles de falar e aqueles de simplesmente ouvir... existem aqueles de se doer e aqueles de guardar a dor no bolso e fazer o curativo na alma do amigo com meia duzia de carinhos silenciosos e, as vezes um puxão de orelha.... Mas no final desses 365 dias, começamos a fazer o balanço do que tivemos, do que vivemos e do que ainda queremos ser e viver... de repente nos pegamos fazendo promessas que ao longo do ano não fariam muito sentido... e, posso estar enganada, isso provavelmente se deve ao fato de que fomos condicionados a dois sentimentos diversos pra essa época.... a frustração pelo que não conseguimos mudar ao longo do ano e a sensação quase palpável de que um milagre pode acontecer e tornar tudo melhor de repente... e é por isso que neste natal, só espero duas coisas para cada um de nós....


Que tenhamos a serenidade pra aceitar que as coisas são mudadas em nós da mesma forma que se fazem as caminhadas.... vc escolhe a direção e dá um passo de cada vez.... então, a frustração só cabe quando desistimos de ser e querer aquilo que é natural de nós mesmos....

E....
Que JAMAIS precisemos ter o nariz vermelho ou parecer com o bom velhinho pra ter a CERTEZA de que a cada dia vencido um muilagre se fez.... e o santo... bem... o santo esta dentro de cada um de nós... pq esses milagres... eles só existem ao fim de cada dia pela força vinda da dor e da beleza de ser EXATAMENTE quem e como somos...


Feliz todo dia! Sempre!
12 de dez de 2013

Sobre amizades e perdas.




Faz algum tempo que não escrevo por aqui. A vida anda corrida, estou trabalhando demais, com problemas para me organizar, então muitas coisas ficam pendentes, infelizmente o blog está entre elas.

Pra completar, ando tendo vários acontecimentos envolvendo amigos e, por que não dizer, "ex-amigos". Quem sofre do Transtorno de Personalidade Borderline sabe o quanto nos apegamos às pessoas, o quanto decepções podem ser gatilhos para uma nova crise. 

Deparei-me com situações onde amigos se vão, amigos novos aparecem e me enchem de medo de uma decepção e finalmente, alguém que eu achava ser um grande amigo se mostrou frio e surpreendentemente diferente de tudo aquilo que eu acreditava. A história é o seguinte: tenho (ou tinha) dois amigos os quais eu considerava como irmãos. Conheço-os há pelo menos 10 anos e estes dois tiveram um papel decisivo na minha vida durante muitas crises, quando eu nem fazia idéia que era border. Acho que quem me acompanha sabe que eu moro em Recife, mas não sou daqui. Vim de Curitiba, onde vivi por 8 anos e estes meninos são de lá.

Acontece que quando eu namorava (aquele filho da puta do meu ex, o C.) viajei para Curitiba e os apresentei para meu ex. Até onde eu sabia, nenhuma amizade surgiu deste encontro, tirando uma empatia. Qual não foi minha surpresa quando esta semana eu soube que este mesmo ex (peloamordedeus, ele parece estar em todos os lugares) está viajando a passeio para lá e, pasme, um desses meus irmãos de coração vai encontrar com ele, almoçar, sociabilizar. sua justificativa para mim é que ele não tinha nada a ver com o stress ocorrido com nosso término de namoro.

Não preciso dizer o quão chocada e decepcionada fiquei com tal atitude. Um menino que eu considerava parte da minha vida simplesmente deixando claro que o fato de eu ter sido tratada como lixo não faz esta diferença na vida dele. Para ser sincera, estou aqui escrevendo e me vem lágrimas nos olhos, só de pensar nisso tudo.

Porque estou contando tudo isso? Porque logo após falei com V., outra amiga de Curitiba e escutei dela que eu deveria parar de me preocupar e sofrer por quem não tem a mesma consideração por mim, que inclusive este mesmo "amigo" já tinha dito que, durante a minha crise onde eu estava láááá naquele lugar chamado fundo do poço, eu estava "me lamentando demais".

Ela está certa. Costumamos colocar num pedestal aqueles que amamos, sem contar que eles podem sim ter falhas ou simplesmente não serem merecedores de tamanho sentimento. A adoração é sempre maléfica, até mesmo na religião. Fechamos nossos olhos para a parte "humana" daqueles que amamos e não contamos, nem por um segundo, que estes simplesmente podem não ter a mesma recíproca ou sequer parecida, ou até mesmo não ligar pra gente. Não estou aqui tentando defender este meu "amigo" e dizer que a responsabilidade é minha pois, como border, amo demais e eu que lide com isso. Estou querendo dizer que ele tem o direito sim de achar que um "almoço inocente" com meu ex não o faz menos amigo meu. Tem sim. Mas eu também tenho o direito de não concordar com isso, de não aceitar e principalmente, não o querer mais em minha vida. Na realidade é essa parte que está doendo demais. 

Temos que tentar nos colocar em primeiro lugar e respeitar nossas verdades, sempre claro, pensando no limite do outro. Eu sei que eu estou fazendo a coisa certa pra mim mesma me afastando, mas isso não faz desse fato um atalho para uma possível recaída. Meu caminho para a estabilidade está sendo menos longo que o esperado, então tenho que tomar cuidado com tudo. E isso cansa demais. E acaba me deixando mais vulnerável.

Não sei se estou fazendo muito sentido. Acho que estou querendo dividir o quanto todos esses acontecimentos estão me forçando a repensar meus conceitos de amizade e que se no final a máxima que já escutei de várias pessoas com o tpb é real: "só conseguimos ser amigos de outro border". Não quero acreditar que isso seja real embora saiba que, nesse meu momento de busca pela estabilidade, eu precise daqueles que me cercam (infelizmente) uma dose extra de paciência. Isso pode levar à crenças de que eu quero tratamento diferenciado. Ou que eu acredite que mereço perdão por todas as minhas faltas por causa do Borderline. Não é isso, eu mesma bato na tecla aqui no blog que o TPB é uma razão, mas não nos exime da responsabilidade pelos nossos atos. Rá. Será que isso só os borders entenderiam também?

Penso que é sempre válido o questionamento pessoal. Pesar as opiniões, questionar o que nos motiva a agir dessa ou daquela forma. É o que estou fazendo, observando, pensando, escondidinha aqui no meu casulo para que, pelo menos nesse período de fragilidade, ninguém possa me ferir mais.

(Vale a dica das técnicas que estou usando para passar por este momento sem usar a gilete: ocupo a cabeça com o trabalho, pratico a Atenção Plena, tento tirar um momento do dia fazendo algo prazeroso, nem que seja por 10 minutos, respeito meus momentos e limites e não me forço a fazer coisas que não me fariam bem, estou tentando melhorar a alimentação e tomar muita água por dia - leia-se comer pelo menos uma fruta e tomar 3 litros de água - no final de semana tento me ocupar com serviços domésticos ou com alguma atividade que eu goste e me dê prazer, que no meu caso foi fazer unhas decoradas.)

** Ah, estou aceitando sugestões para temas para um novo vídeo...


5 de dez de 2013

Quanto pesa o amor





Todos os dias, toda hora, o tempo todo, lidamos com o que sentimos e com as expectativas que temos... Mas mais do que isso, lidamos com o que os outros sentem e esperam...
A maioria das vezes, fica difícil de se lidar com as expectativas e sentimentos alheios por que na maior parte do tempo, a educação que recebemos nos impede de demonstrar o que sentimos e queremos, o que pensamos e como nos atingem as atitudes dos companheiros... Em se partindo deste princípio, temos duas soluções... Dois caminhos a seguir... No primeiro, somos cordatos e passivos, abrimos mão do papel de sujeito da própria história em prol da manutenção de uma postura polida e socialmente irreparável e segura. Isto, no entanto nos coloca em um ponto de atuação teatral acerca do que sentimos e pensamos... Rouba-nos o prazer de dar-se as experiências que realmente fazem valer o amar por amar... Tira de todo a espontaneidade e a possibilidade de troca que proporciona o amadurecimento da relação e dos indivíduos nela envolvidos. Agora, se vamos ter um relacionamento onde tratamos o companheiro com a polidez de quem frequenta um restaurante cinco estrelas e engoliremos os sentimentos como se nada mais pudéssemos fazer a não ser dissimular o que nos magoa e o que nos dá prazer... Por que relacionar-se então? De que esse relacionamento vai acrescentar e em que ele pode realmente evoluir???
               Bem, existe a segunda hipótese... A de um relacionamento franco, honesto, onde os companheiros expressam entre si o que sentem, sonham, desejam e, principalmente, aquilo que dá ao relacionamento o amadurecimento e a força para fincar raízes... O dar-se a conhecer! Como fincar raízes de um relacionamento que não divide, que sonega, que não se dá? Bem... Pra isso se precisa, necessariamente da escolha de ambos para uma postura de transparência e partilha honesta... Uma pré-disposição para enfrentar o mundo juntos e para defender ao outro como a si mesmo...
               Mas nem tudo é tão definitivo... Sempre tem a possibilidade de um escolher o relacionamento de partilha e o outro preferir o relacionamento de polidez... Neste caso, um estará sempre buscando a partilha racional e franca dos gostos e sensações, das mágoas e dos sonhos... Enquanto o outro sentir-se-há incomodado com a partilha, preferirá deixar calados os sentimentos adversos e fazer de conta que nada aconteceu... Neste caso, as demonstrações de afeto e desejo serão tão penosas quanto as de desagrado e contrariedade.... Mas, se você não der ao seu parceiro o conhecimento do que te faz bem, ou mais feliz? Da mesma forma, de outro lado tem a situação inversa... Como fazer feliz alguém que não partilha seus prazeres e desprazeres? Como saber como fazer mais feliz alguém que se faz incógnita?
               Por fim, quanto pesará no dia de seu companheiro o tipo de amor que você escolheu viver? Quanto pesará pra você mesmo a escolha feita entre o dar-se e o eximir-se da partilha de quem se é? Esta talvez seja a hora de refletir e por na balança o que realmente tem maior peso na construção de sua estrada e caminho... Afinal, o que é mais importante pra você?
Seja qual for a sua forma de amar, seja qual for a sua forma de viver a sua vida e o seu amor, que o amor esteja presente e seja força transformadora em sua vida... 

4 de dez de 2013

Sobrevivendo às festas de final de ano.



Com as festas de final de ano se aproximando, você deve estar sob a influência de uma nova onda de ansiedade. Bem, você não está sozinho.

Na teoria, estas festas são cheias de paz, amor e alegria. Mas isso raramente funciona pra todo mundo, especialmente se você está lutando contra os sintomas do transtorno de personalidade borderline, como por exemplo o medo do abandono, raiva, ansiedade ou depressão e mudanças de humor. Eles podem fazer com que fique difícil pra você aproveitar este tempo passado com a família e amigos.

Aqui estão algumas coisas pra você lembrar para te ajudar a aproveitar esta época do ano um pouco mais, apesar dos seus sintomas:

Espere passar

Essas festas podem ser tensas para qualquer um, border ou não. Há um monte de expectativas de que as comemorações serão cheias de momentos mágicos. Isso é muita pressão!

Vamos ser honestos? Quando é que colocar uma família inteira dentro de uma casa dá 100% certo?

O importante é lembrar que as festas são temporárias. Muitas vezes quando as coisas não estão boas, parece que sempre foi assim e que vai ser sempre. Você esque d.os dias melhores, quando você não estava exposto àos gatilhos estressantes como essas "reuniões familiares"

Atenção Plena

Pratique a atenção plena para te ajudar a estar mais focado no momento presente ao invés de ansioso pelo que pode acontecer. Isso pode te ajudar a regular melhor suas emoções, relaxar e aproveitar esse tempo com a família e amigos.

Retribua

Como todo mundo diz, é melhor dar que receber. Um bom jeito de se sentir presente e abençoado e também de examinar as priori
dades é ser voluntário em alguma creche, orfanato ou intituições de caridade.m Ajudando os outros, você compreende não só seu próprio valor e a diferença que está fazendo na vida dos outros, tem a oportunidade de sair de si mesmo e imaginar a luta que outros estão passando. Ser capaz de se colocar no lugar dos outros é uma habilidade muito boa para se aprender. E melhora o espírito.


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* O Ano-Novo seria meu aniversário de 6 anos de namoro com meu ex.
Sem mais.

3 de dez de 2013

Depoimento: dias borderlines.



(segundo desabafo da Poison Girl. Se quiser publicar o seu, envie para borderlineggirl@gmail.com)

Domingo, dia 17 de novembro de 2013, o dia que era para ter sido um dos melhores da minha vida tornou-se um desastre completo. Alguns dias antes eu já tinha tido um ataque, me cortado e pintando meu cabelo de loiro, raspando uma parte dele, mas no domingo foi pior. 

Primeiro foi um dia maravilhoso, levei vários presentes para minha namorada, cheguei de surpresa já que no dia 23 faremos um ano, tiramos várias fotos, até mesmo fizemos vídeos. Mas começamos a beber e é aí que o problema começa, bebi 3 garrafas de cerveja e um litro e meio de vinho, fumei inclusive um maço inteiro. Finalmente tive coragem de pedir a mão dela a minha sogra em casamento, até mesmo chorei de emoção por ela ter deixado. Mas depois comecei a passar mal, minha namorada teve que me levar pra casa, comecei a me cortar, a chorar muito. Felizmente ou infelizmente atingi uma veia do pulso, cortei meus braços, pernas e se não fosse minha namorada estancando o sangue da veia poderia ter sido pior. Minha mãe ficou horrorizada, pedi a minha namorada para que explicasse a ela o motivo disso tudo, que meu cunhado passava a mão em mim, tirava fotos minhas com roupas leves de dormir, quando eu tinha apenas 10 anos. E que eu jamais contei porque me sentia culpada, e tinha muito medo de que fosse apenas alguma coisa da minha cabeça e acusar alguém inocente. Mas meu ex estava escondido um dia embaixo da minha cama e viu ele mexendo na minha primeira gaveta onde ficam calcinhas/cuecas e sutiãs. Só que aí já era tarde demais, minha irmã já estava casada com ele e eu tinha medo de que ela não acreditasse em mim, de ser julgada. Por isso estou pesando quase 45 kg, 10 kg a menos do que eu deveria estar pesando, não quero que ninguém olhe pra mim. 

Por isso me corto, bebo, choro, me sinto culpada e não me sinto à vontade na minha própria casa. As pessoas que tem borderline geralmente tem medo de serem abandonadas por aqueles que amam, eu também tenho medo disso e também tem necessidade de impressionar as pessoas, mas no meu caso eu me corto e sofro toda vez que um amigo se declara pra mim, porque eu só quero que eles sejam meus amigos. Praticamente todos os homens que eu conheci me magoaram, a ponto de praticamente me estuprar me fazendo fazer sexo contra a minha própria vontade. 

Minha sogra conversou comigo, sobre a possibilidade de ir morar na casa dela, achei muito legal, e provavelmente é o que farei, talvez me fará muito bem, não custa nada tentar. Afinal, eu prefiro voltar para o hospital ou ir para um hospício ao invés de ficar em casa. Minha mãe falou que todo homem é um pouco assim, que eu to exagerando, que parece que estou usando isso como desculpa pra ir morar com a minha namorada, é parece que eu devia ter aceitado e ter ficado quieta. Jamais imaginei que eu não iria sequer conseguir ficar perto da minha irmã, de quem gosto tanto, por culpa dessa pessoa que estragou minha vida. Jamais imaginei que teria que sair de casa, mudar tudo, só pra tentar me sentir bem, mas prefiro sair daqui e lutar a deixa-lo vencer. A questão é contar ou não para minha irmã a verdade, talvez já seja tarde demais e acho que eu jamais teria coragem.


2 de dez de 2013

Amor, Paciência e Persistência.


(texto da linda da Paula Sophia, que não conseguiu postar semana passada e eu só parei pra postar hoje...)


Décadas se passam desde que ouvi uma das maiores lições do meu avô... uma lição que trouxe pra minha vida inteira e que guiou meus passos na senda das relações humanas ao longo da vida... 

_”O amor, minha filha, é feito de uma combinação única de cinco coisas.... Respeito, cumplicidade, companheirismo, amizade e confiança. Se faltar uma dessas coisas, pode dar o nome que quiser, mas amor não é...”

Sábio, sem dúvidas... No entanto, hoje eu agregaria outras duas coisas para a receita exata desta pretensa racionalização do amor...

Eu, hoje, agregaria a PACIÊNCIA e a PERSISTÊNCIA como itens importantes da constituição básica do amor... Não, eu não estou tratando de amor maternal ou filial... estou falando sim do amor de desejo... aquele que acontece entre um casal... Seja hétero ou gay, estes são sim itens importantes na composição do que se pode reconhecer como amor... Vejo por mim mesma.... anos de amor por uma mesma mulher... inúmeras tentativas de dar termino à relação... e sempre o mesmo velho amor cheio de astúcia nos punha novamente uma nos braços da outra... Por que tentávamos nos afastar? Ah... pelas mesmas razões que todo mundo.... porque uma sem a outra perde o motivo pra lutar... porque é mais fácil viver sem luta... Ainda que haja muito menos mérito na vivência de não amar por comodismo, é inegavelmente mais fácil... infinitas vezes mais calmo do que a avalanche de sentimentos e situações que a insistência no amar por simplesmente amar nos impõe... E foram elas.... a persistência de um amor que se negava a morrer e a paciência que só quem também sente coisas únicas e inexplicáveis tem com quem ama e faz coisas doidas.... Ah essa vida insana.... Ah esse amor que não se extingue... Ah.... não se extingue porque tem 7 pontos de apoio em vez de 5.... Ah o avanço... Veja Seu Walter.... até mesmo o amor evoluiu com o tempo...
24 de nov de 2013

Quando a alegria se vai. (relato de uma depressão com final feliz)


Quando a gente está mal, muita gente se afasta. Mas por outro lado, você vê ajuda de quem não esperava. Aconteceu comigo, quando eu tava lááá naquele lugar frio e escuro chamado fundo do poço, uma menina que eu sempre admirei e gostei, porém que nunca tinha tido uma relação muito estreita (era mais de trabalho) me deu a mão, me escutou e foi a primeira que eu senti que realmente me entendeu.

Semana passada ela me mandou este post, que originalmente estava no blog Hyperbole and a Half, falando sobre a depressão e a dificuldade das pessoas de compreender este sentimento.

O que eu vou postar aqui já é a tradução feita pelo Gluck Project, e tenho que falar que poucas vezes vi um texto tão simples explicar tão bem o inexplicável.

Ele vai também em homenagem e agradecimento a ela, que me deu duas visitas, um almoço e uma caixa de chocolate (cuja caixinha está hoje na minha mesa de trabalho), que pode até parecer pouco, mas mal ela sabe que foi um dos acontecimentos que me motivou a lutar.

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Depressão parte dois

Me lembro de como me divertia eternamente com as aventuras dos meus brinquedos. Em alguns dias, eles morriam diversas mortes violentas, em outros viajavam até o espaço, em outros discutiam as minhas aulas de natação e como eu deveria poder nadar na parte funda da piscina, principalmente porque eu dominava tão bem o nado cachorrinho.



Eu não sabia por que aquilo me divertia tanto, apenas era divertido.


Mas à medida que fiquei mais velha, ficou cada vez mais difícil acessar aquele lugar imaginário que deixava os meus brinquedos divertidos. Eu me lembro de olhar para eles e me sentir meio frustrada e confusa porque as coisas não eram mais as mesmas.


Eu ficava repetindo todas aquelas histórias que antes eram engraçadas, mas agora elas tinham perdido o sentido. A Grande Aventura do Cavalo no Espaço se transformou em Segurar um Cavalo de Plástico no Ar, e eu esperava que aquilo fosse de alguma maneira divertido para mim. A Viagem Maluca do Ônibus Pré-Histórico da Morte agora era apenas jogar um ônibus cheio de dinossauros de brinquedo contra uma parede enquanto eu me sentia meio entediada. Eu não conseguia mais me conectar com meus brinquedos.


Depressão é exatamente a mesma coisa, mas com tudo ao seu redor.

No começo, aquela invulnerabilidade que surge quando você não se importa mais com as coisas era empolgante. Quer dizer, tão empolgante quanto algo sem emoções poder ser.


O começo da minha depressão foi uma avalanche de emoções, então foi um alívio começar a não sentir mais nada. Eu sempre quis estar pouco me fodendo para as coisas. Eu via os sentimentos como uma fraqueza – obstáculos irritantes na minha busca de poder total sobre mim mesma. E finalmente eu não estava sentindo mais nada.

Mas as minhas experiências lentamente foram se achatando e misturando até ficar óbvio que tem uma grande diferença entre estar pouco se fodendo para as coisas e não conseguir se importar com nada. Cognitivamente, você até sabe que coisas diferentes estão acontecendo com você, mas elas não parecem muito diferentes.


O que leva a um tédio terrível e corroente.


Eu tentava sair mais de casa, mas a maioria das atividades divertidas me deixava existencialmente confusa ou frustrada com a minha incapacidade de aproveitá-las.


Meses foram se passando e eu lentamente comecei a aceitar que talvez nunca mais pudesse me divertir. Mas eu não queria que ninguém soubesse. Eu ainda estava meio constrangida de ficar entediada ao lado das pessoas, e tinha esperanças de que as coisas fossem se resolver sozinhas. Se eu conseguisse não afastar os outros, tudo poderia ficar bem!

Mas eu não conseguia mais me basear em emoções reais para controlar as minhas expressões faciais e quando você tem de ficar manipulando conscientemente o seu rosto para ter uma conversa, as pessoas acabam se afastando.




Todo mundo percebia.


É esquisito para as pessoas que ainda têm sentimentos conviver com pessoas deprimidas. Elas tentam fazer você sentir as coisas para que tudo volte ao normal e é frustrante quando isso não acontece. Para elas, parece que tem de haver uma fonte escondida de felicidade em algum lugar dentro de você que você simplesmente perdeu. E que se você apenas pudesse ver como o mundo é bonito…



No começo, eu tentava explicar que o que eu estava sentindo já não era mais pensamento negativo ou tristeza, era apenas uma névoa sem sentido na qual você não consegue mais sentir nada – nem mesmo as coisas que você ama, nem mesmo as coisas divertidas – e que você está terrivelmente entediada e sozinha, mas, como você perdeu a capacidade de se envolver com qualquer assunto que normalmente te deixaria menos entediada e sozinha, você acabou presa nesse mundo entendiante, sozinho e sem sentido, no qual não há nada que te distraia do fato de que ele é entendiante, sozinho e sem sentido.






Mas as pessoas querem te ajudar. Então elas se esforçam mais para fazer você se sentir esperançosa e positiva diante da situação. Você explica tudo de novo, e diz que talvez não haja esperança, mas quando você re-explica a sua incapacidade de sentir alegria, você acaba parecendo uma pessoa negativa; como se você QUISESSE estar deprimida. A positividade começa a aparecer como se fosse um spray direcionado à sua cara – um raio laser gigante e desesperado de alegria mirando bem a sua testa. E isso não para e não para, até chegar aquele momento em que você está argumentando que você é um caso sem solução, que não há esperanças para você, para que eles desistam de sua missão da felicidade e apenas deixem você sozinha para se sentir entediada novamente.


E essa é a coisa mais frustrante da depressão. Não é algo contra o qual você possa lutar com esperança. Na verdade, nem é um algo – é um nada. E é impossível combater o nada. Você não consegue preenchê-lo. Você não consegue cobri-lo. Ele está apenas lá, tirando o sentido de todas as coisas ao seu redor. Quando é assim, todas as soluções positivas e pró-ativas começam a parecer completamente malucas em comparação com o verdadeiro problema.

É como ter um monte de peixes mortos na mão e ninguém reconhecer que os peixes estão mortos. Em vez disso, as pessoas se oferecem para tentar achá-los ou tentar descobrir como desapareceram.







O problema talvez nem tenha solução. E você nem necessariamente está procurando por soluções. Você talvez só esteja procurando por alguém que diga: “eu sinto muito que os seus peixes morreram” ou “nossa, como eles estão mortos. Mas tudo bem, eu ainda gosto de você”.



Comecei a passar mais tempo sozinha.


Talvez fosse porque eu estava sem estrutura emocional para entrar em pânico, ou talvez eu não sentisse que minha situação fosse dramática o suficiente, mas eu de alguma maneira me convenci de que tudo estava sob o meu controle. Até perceber que eu esperava que ninguém mais me amasse o suficiente para sentir a minha falta. Assim, eu não teria que me obrigar a continuar existindo.



É um momento estranho quando você percebe que não quer mais estar viva. Se eu ainda tivesse sentimentos, certamente estaria surpresa com isso. Eu passei a maior parte da minha vida tentando ativamente me manter viva. Desde o meu ancestral unicelular mais antigo, houve uma corrente inquebrável de coisas que queriam muito sobreviver.




Mas lá estava eu, desejando parar de existir da mesma maneira que você deseja sair de um quarto vazio ou desligar um insuportável barulho repetitivo.


Mas essa não era a pior parte. A pior parte é decidir continuar vivendo.


Quando eu digo que decidir não me matar é a pior parte, preciso deixar claro que não quero dizer isso hoje em dia, retrospectivamente. Hoje, para mim, me parece uma decisão bem sensata não ter me matado. Mas naquela época parecia que eu teria que me arrastar por uma terrível e interminável terra destruída e que – lá ao longe – talvez eu tenha visto um fim para tudo isso. Mas assim que eu chegasse ao fim dessa terra destruída eu teria que me virar e atravessá-la toda de novo.


Logo depois eu descobri que não havia uma maneira delicada ou sensível de contar às pessoas que você anda meio suicida. E que também não daria para pedir ajuda, assim, como quem não quer nada.




Eu não queria que fosse um negócio enorme. Mas é um assunto alarmante. Tentar levar a questão numa boa só deixava todo mundo ainda mais assustado.


Eu também andava muito mal preparada para acalmar ou reconfortar alguém. O que era reconfortante para mim não necessariamente era para os outros.




Eu não tinha sentimento algum, e todo mundo ao meu redor tinha tantos sentimentos, que parecia que eles estavam sentindo tudo de propósito na minha frente. Eu realmente não sabia o que fazer, então topei ir ao médico para ver se todo mundo parava de ficar tendo todos esses sentimentos por mim.


Nas próximas semanas, fiquei falando com um batalhão de pessoas esperançosas sobre os meus sentimentos que já não existiam mais, para que elas me prescrevessem remédios para que eu voltasse a senti-los.


E tudo que eu fazia parecia uma imensa merda sem sentido. O absurdo de ter que se esforçar tanto para continuar fazendo uma coisa que você não consegue é esmagador. E quanto mais demora para você começar a se sentir diferente, mais parece que no fundo tudo é uma imensa merda sem sentido mesmo.


Lentamente, meus sentimentos começaram a voltar. Mas nem todos, e eles não chegaram de uma maneira simétrica.

Por muito tempo, não consegui me importar com nada e, quando comecei a me importar com as coisas novamente, eu as ODIAVA todas. Mas, tecnicamente, ódio é um sentimento. E meu cérebro se agarrou a ele, como se fosse uma criança aprendendo um mundo novo.



Odiar tudo fez com que toda aquela positividade se tornasse menos palatável ainda. Aquele otimismo simplificado começou a parecer ofensivo.





Felizmente, eu redescobri o choro pouco tempo depois. Eu chamo de “choro” e não “tristeza”, porque era isso mesmo. Era chorar por chorar. Meu cérebro aprendeu mais ou menos a ficar triste de novo, mas resolveu sair por aí com tudo antes de aprender a usar os freios ou a direção.






À certa altura durante essa fase, eu ficava chorando no chão da cozinha sem motivo algum. E o que eu costumava fazer durante essas sessões de choro-no-chão era encarar o nada e me sentir meio estranha. Então, através da névoa de lágrimas e nada, eu avistei um pequeno e murcho grão de milho debaixo da geladeira.


Eu realmente não sei o que aconteceu, mas quando eu vi aquele milho, algo fez um “clic”. E isso mexeu com a minha lógica toda de uma maneira que eu não sei explicar, e produziu o riso mais confuso, incontrolável e atropelador que já tive na minha vida.


Eu não fazia idéia do que estava acontecendo.








Pelo jeito, meu cérebro armazenou cada felicidade que eu não sentia nos últimos dezenove meses e impulsivamente decidiu liberar tudo de uma só vez como num ato de vingança.


Aquele pedaço de milho era a coisa mais engraçada que eu já havia visto, e eu não conseguia explicar para ninguém por que ele era engraçado. Se alguém me perguntar: “qual foi o exato momento em que você parou de se sentir uma merda?”, em vez de contar uma história fofa ou enternecida sobre como as pessoas me apoiaram e me amaram, eu vou ter que contar do pedaço de milho. E aí eu vou ter que explicar que foi, sim, de verdade, engraçado. Porque, olha só, o jeito que o milho estava sentado no chão… ele estava tão sozinho… e ele apenas estava lá! E não importa como eu explique, eu sempre vou receber um olhar confuso em troca. Então talvez eu devesse mostrar às pessoas o pedaço de milho – para ver se elas entendem. Mas elas não vão entender. E as coisas só vão ficar ainda mais estranhas.



De qualquer forma, eu queria terminar essa história com um tom positivo e esperançoso, mas ainda tenho minhas ressalvas e acho que tudo isso de positividade e esperança é uma besteira. Então só vou falar isso: ninguém consegue garantir para você que vai ficar tudo bem, mas – e eu não sei se isso vai ser reconfortante para alguém – existe a possibilidade de que tenha um pedaço de milho em algum lugar por aí que vai deixar você tão confuso com o seu riso quanto você estava confuso antes com a sua depressão. E mesmo que tudo isso pareça uma besteira sem sentido, talvez só seja uma besteira sem graça ou estranha ou talvez até nem mesmo seja uma besteira.


Eu não sei.

Mas, quando se está caminhando por aquela terra destruída sem fim, talvez não saber das coisas seja até esperançoso.


FIM

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Vou fazer minhas as palavras do blog: Se você chegou até o fim deste post, que é enoorme, você estava mesmo afim de saber o final desta história. 

No final das contas, temos que tentar encontrar o caminho de volta daquele lugar escuro, não é? Eu estou tentando.

E você?

(lembrando que este post foi tirado do Gluck Project, que traduziu o post do Hyperbole and Half)