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1 de abr de 2013

O Borderline e a família - reações ao diagnóstico




Essa semana eu citei por duas vezes uma irritação com minha mãe, então resolvi falar um pouco sobre a reação que minha família está tendo desde que fui diagnosticada.
Quero deixar claro que amo meus pais, não os culpo, mas estou mostrando a situação como estou vendo.

Minha mãe e meu pai tem visões diferentes sobre meu problema. Ela é fisioterapeuta, portanto tem uma perspectiva mais científica sobre o problema. Foi ela que sempre quis um "nome" para o que eu tinha e não se sentia confortável com meu primeiro diagnóstico, de bipolar. Agora que ela sabe, bem, sua reação é meio que o oposto dos depoimentos que vejo por aí. ela conta que sou borderline com a frequência de quem tivesse citando uma mera gripe. Tem gente que eu não vejo a 15 anos e sabe que tenho o transtorno. Tenho que confessar que isso me deixa meio desconfortável, pois quando eu estou perto dessas pessoas eu sinto uns olhares meio de pena, meio de... "cuidado, ela pode ter uma crise em qualquer minuto". Bem, e se quiser contar para alguém, acho que sou eu quem deve fazê-lo, não?


Acontece que apesar de ver o TPB de uma forma mais científica, minha mãe tem este problema que a faz crer que estes transtornos (como uma gripe) podem ser tratados com remédios. Só com eles. Não, ela não boicota a terapia, mas sinto pelas coisas que ela fala que espera que, agora que estou com quase 2 meses de medicação, eu melhore mais rápido. Frases como "está na hora de você conseguir fazer isso" demonstra a impaciência dela algumas vezes. Mas apesar disso não está se mostrando muito inclinada a conhecer o transtorno mais a fundo. Ela está a quase um mês lendo "Corações Descontrolados". Não consegue enxergar coisas que estão na cara dela, tipo, meus cortes. Semana passada eu estava praticamente uma picanha fatiada (ironias a parte) e toda desculpa que eu dava era que os gatos arranhavam meu braço. Mas sério, precisa ser um gato ninja para fazer cortes todos com o mesmo padrão e retos. Pode ser que ela perceba e não queira falar sobre isso? Talvez. Mas eu não acredito. Existe este padrão de pensamento em todo e qualquer pai, principalmente com filhas mulheres: "A minha princesinha não faria isso..." ou "com a minha menina as coisas são diferentes, mais leves...". No fundo acho que há uma recusa a se entender o problema, pois quando se entende, você fica mais responsável pelas suas ações. E os pais tem que admitir que o filho tem um problema e que não é tão fácil lidar com isso. Fora isso, existe um caminho bem pequeno entre o cérebro e a boca de minha mãe. Então várias vezes eu escuto "gorda", "preguiçosa", "irresponsável"... Mesmo que ela tenha intenção de me chamar daquilo pra uma situação específica, na minha cabeça isso soa como um rótulo.

Falando nisso, temos o meu pai. ele tem um certo limite para entender e aceitar certas coisas. Possui sua própria verdade e acredita nela como se fosse a verdade universal. A primeira vez que nos vimos depois do diagnóstico, apesar de eu já ter dito que tinha um transtorno, ele teve uma reação que se resumia a: "ela está assim porque levou um pé na bunda.". Me encheu de coisas, presentes, dinheiro... Eu pensava e eu tinha. Então resolvi mandar pra ele o artigo da VEJA que tenho aqui no topo do blog. Apesar dele ser bem auto-explicativo, não teve muito efeito em meu pai. Ele resolveu chamar um psiquiatra amigo para explicar sobre meu problema. Este profissional teve a feliz idéia de falar sobre minhas reações como se fosse um modelo pré-definido de todo border. Resultado? Mais confusão. Agora meu pai entende um pouco mais, porém tem a falsa crença que eu "estou borderline" e não que SOU borderline. Isso gera uma inquietação de minha parte, pois se ele não tiver a consciência plena que isso vai me seguir por muito tempo, vai ser difícil dele entender certas reações minhas. Estou ciente que meu caminho é longo, e eu nem cheguei na parte de acreditar que eu vá viver com isso.

De certa forma me acho afortunada. Vi relatos em que os pais tendem a se recusar a entender o problema e a cura acaba sendo um caminho a ser trilhado sozinho. Também acho que há uma minimização do transtorno (de todo e qualquer), como eu expliquei acima, pois é mais fácil de se digerir quando não se tem uma visão mais realista. E é claro, existe o pensamento que é "frescura". Isso deve ser o pior. Como é comum a idéia de que borders são manipuladores e dramáticos, fica fácil achar que o filho problemático é simplesmente... problemático. Que faltou-lhe umas boas palmadas. Tenho que confessar que a descoberta de que NÃO sou manipuladora foi um alívio pra mim, entender que o comportamento que eu nomeava como tal é simplesmente minha forma de ver o mundo e de conseguir não ser abandonada. Uma pessoa manipuladora pensa no que vai fazer e manipula com o intuito de envolver o outro. Pra mim é uma forma de não perder as pessoas a minha volta.

Meu conselho é tentar jogar limpo, caso você necessite mesmo do apoio de seus pais. Se eles não entenderem, é com eles. Você falar abertamente sobre sua dor, suas inquietações talvez tenha efeito, talvez não. A escolha é nossa. Eu fiz a minha e, apesar de alguns percalços, não me arrependo dela.

P.S. - Ia falar também sobre a relação com os amigos, mas o post ia ficar muito longo. Fica pra outro dia.

4 comentários:

  1. É complicado, né?! Difícil outra pessoa entender algo que nem a gente entende direito. Minha mãe tb é bipolar, mas os sintomas dela são diferentes dos meus, em certos aspectos. E nesses pontos a gente se aceita, apesar de não entender completamente. Já meu pai, ele é bem compreensivo, apesar de não pesquisar nada sobre a doença. Ele acha que conhece o transtorno muito bem, pela experiência que tem com minha mãe. Fazer o que né?! Nem tudo é perfeito. Mas pelo menos eles me aceitam como sou e isso é o mais importante. Me sinto muito afortunada pelos pais q tenho, graças a Deus!

    bjs da Flor~*

    http://bipo-analisando.blogspot.com.br/

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  2. Para mim a vida é fácil de ser vivida, basta não complicar a mesma, assim sendo, os meus problemas são só meus, para os resolver tenho que ter a capacidade para os resolver, bem...os meu pais são os meus pais e nada mais, ele também tiveram os seus problemas que conseguiram resolver sem o meu envolvimento.
    É muito fácil viver a vida.

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  3. Naty! complicado... ja experimentou falar com ela que vc fica constrangida qdo sua mae comenta com os outros...deixe claro, num momento que vc esteja mais tranquila, que o transtorno eh seu e que vc nao fica a vontade com ela espalhando isso por ai...

    qto ao tratamento, bem vc estah dando murro em ponta de faca, pois nos dois sabemos que a bebida eh um depressivo qdo aliada aos remedios, entao vc se boicota direto e eu de vez em qdo... conversa isso com a sua mae, diz que vc faz isso pra aliviar a dor, que nao eh tao facil bla bla bla... tipo abre seu coracao....e se ela nao for receptiva, vc terah q aprender a conviver com isso... da mesma forma que estou lutando para me conformar com certas coisas da minha familia, que me fazem tao mal - depressao exogena...

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  4. Oi, nem sei se vc vai ver isso Pq o post é antigo, mas enfim, preciso de alguns conselhos. Minha irmã é borderline, descobrimos tem pouco tempo, na verdade eu nem sei se ela sabe do diagnóstico, a terapeuta dela conversou com minha mãe, que me contou. A questão é que temos uma relação BEM difícil. Nossa família é bem desestruturada, em termos de relação dos nossos pais, e agora eles estão se divorciando, e os problemas acabam ficando maiores na cabeça dela. Tem uns dois anos que quase não nos falamos, quando estamos de bem é por pouco tempo mas ainda sinto que estou sempre pisando em ovos pois a qualquer momento ela pode voltar a me odiar. Ela tem 23 anos e eu sou um pouco mais nova. É literalmente inviável eu manter uma relação com ela Pq ela não me aceita mais na vida dela, fala que eu não presto pra ela pois só a prejudico. Essa é uma visão muito distorcida da realidade que sei que é explicada pelo transtorno, mas ainda assim me dói muito saber que ela pensa essas coisas de mim. Fico sempre de mãos atadas pois não posso fazer mais nada para ajudá-la. Já pensei em desistir inúmeras vezes Pq mesmo sabendo q é uma doença, às vezes não tenho cabeça para continuar do lado dela, me faz mal e estou caindo em depressao com toda a situação, minha terapeuta apenas diz para ter paciência mas é muito difícil quando a minha simples presença em um ambiente é motivo de tanto desagrado a ela a ponto de causar uma briga Pq estou na cozinha na hora q ela quer almoçar por exemplo. Moro só em outra cidade então não estou sempre na casa dos meus pais, e deixei de ir ultimamente pois ela fala q ali não é minha casa e que ela não fica em casa se eu estiver também. Confesso que só a única coisa q me faz continuar a frequentar a casa é a minha mãe. O momento está muito difícil pra ela e as responsabilidades com minha irmã caem todas em cima dela pois meu pai é omisso nesse sentido, sendo ele também mentalmente perturbado e ainda pior pois não aceita tratamento. Eu de verdade estou desesperada eu não sei mais o que fazer. Me sinto tomada por todos os problemas dela, deixando os meus próprios de lado. Ela me faz me sentir culpada por ter uma vida a parte dos problemas dela, mas não aceita que quero ajudá-la. Ela tem uma necessidade imensa de redenção, que todos à sua volta de alguma forma se redimam com ela, pedindo perdão por motivos que muitas vezes nem existem, apenas em sua cabeça. E é preciso ralar muito pra conseguir esse perdão. Ela já não tem amigos pois todos se afastaram, e eu não posso abandoná-la também, mas está cada vez mais difícil lidar com todo esse ódio que emana dela. Eu tento agora por minha mãe, Pq sei que uma relação saudável minha com minha irmã já não é mais possível, mas quero vê-la bem Pq a amo apesar de tudo e se ela estiver bem minha mãe também vai estar bem. Por favor me dá alguma coisa, qualquer coisa pra eu conseguir lidar melhor com isso de verdade estou desesperada. Espero que vc leia, e desculpa o texto. Um abraço

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