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12 de set. de 2013

DA INESPERADA VISITA




“Felicidades se encontra é nas horinhas de descuido”... Foi Guimarães Rosa quem disse e eu humildemente concordo com ele. 

Felicidade não tem compromisso com hora ou lugar, ela simplesmente vem e mora... Até ter vontade de se mudar pra outro canto, até se pintar de outra cor. Até ser outra canção pra se dançar e deixar leve o espírito.

Eu bem acho que isso de ser feliz é coisa de não existir. Conjuga-se a felicidade com o verbo ‘estar’, que implica transitoriedade, que não dá ao sujeito a ilusão de ficar pra sempre. Por que não é de praxe dos sentimentos a condição estática. Por que é da efemeridade o seu entendimento... Então, se bate à porta a tal felicidade, é preciso que o sujeito descuidado a perceba e lhe dê o melhor acolhimento possível. Trate-a feito a visita mais importante, dê-lhe absoluta atenção e disponibilidade pelo tempo deliciosamente indeterminado. 

O sujeito feliz faz feliz a toda a gente. E depois, quando ela vai embora, talvez sem despedida ou demora, até as saudades ficam por um bocado de tempo cheirando à felicidade. Tudo quanto é pensamento remete à sua visita encontrada na horinha inesperada. E o sujeito sabe que, quando houver outra hora descuidada, é preciso beber um gole generoso da sua bebida. É preciso mordê-la com gulodice, amarrota-la de beijos sem a mínima cerimônia.

A felicidade, às vezes eu penso, que seja logo ali no sorriso do menino. Eu gosto quando ela está no olho de quem eu amo. Eu sorrio quando ela se espalha, ainda que efêmera, e contamina um bocado de gente.

A felicidade tem vezes de ser ligeira, mas toda a vida é massa.


* Post da blogueira convidada (de honra) Milene Lima, do blog Inquietude. Mais uma visão muito linda dessa coisa que a gente acha tão difícil de conseguir, a tal da felicidade... ;)

Mi, AMEI. Arrasou. Como sempre.


11 de set. de 2013

Das ilhas de felicidade...


Domingo à noite abre-se uma janela inbox onde alguém me lança um desafio...
Escreva sobre a felicidade...-me diz ela...
Mas se pra qualquer um no mundo "normal" viver no Brasil em 2013 já é mais do que motivo pra ver dificuldade em escrever sobre a felicidade, imagine-se sendo um não borderimerso no mundo border até o pescoço...
Pensei, pensei, pensei e repensei sobre o assunto e (vocês vão cansar de ouvir falar nele...) a voz do meu avô ecoou em minha mente dizendo:

O caminho é mais importante do que o destino.... afinal ele é escolha sua!


Bem.... me veio também MIlan Kundera e sua magnífica teoria da insustentabilidade da leveza.... E bem... vamos ao que saiu desse pensar, repensar e tecer ligações absurdas entre Milan Kundera e Walter Garcia...

Pus-me a pensar nos motivos que levam o caminho a ser mais importante que o destino e me veio a ideia de que o destino de todos nós é o mesmo e leva do nascimento à morte, assim o que nos diferencia uns dos outros é o que fazemos entre um momento e outro.... se todos os caminhos levam a Roma, pouco importa como seja Roma... importa o que vc é capaz de aprender e discernir ao longo do caminho... 
Muitos me perguntam como lido com a infelicidade, principalmente quando as mazelas transbordam pelos olhos... mas, mazelas todos temos e em terra de mimimi quem consegue transbordar as mazelas e ver-se livre delas é rei... e eu me sinto rainha!! Não pq seja mais ou melhor.... mas pq eu posso dizer que conheço a felicidade e que ela me parece amiga íntima... não mora comigo mas me visita com frequência e ainda toma um chá...

Mas o paradoxo não esta em eu ter uma relação assim tão estreita com a felicidade...  o paradoxo está em minha escolha sobre a posição a tomar diante da única escolha real a fazer... 

Todos nós estamos em um deserto... e diante de nós existem pequenos oásis onde habita a paz e a felicidade...
Podemos maldizer as areias escaldantes e ignorar o oásis crendo que não passa de uma maldita ilusão de nossa mente infeliz nos torturando com imagens do inatingível... Podemos deitar âncoras no oásis e nos entregarmos ao medo de encarar as areias escaldantes maldizendo-as por nos cercar indefinidamente... ou podemos ainda estar no oásis cientes de que ele nos é benéfico e favorece ao restabelecimento das energias para encarar as areias escaldantes até nosso próximo oásis...

Segue um trecho de A insustentável leveza do ser , de Milan Kundera e o link para o filme homônimo... garanto que é uma excelente experiência pra se levar ao longo do caminho...



“Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está a nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. Então, o que escolher? O peso ou a leveza?”

“Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo ‘esboço’ não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.”



10 de set. de 2013

Sobre a felicidade



Talvez a felicidade não se encontre em uma vida estável, onde todos os dias sejam de sol e nada pareça ser capaz de perturbar a calmaria. Não... A felicidade se encontra em momentos que vem e vão, fugazes, as vezes quase imperceptíveis. Um sorriso, um abraço, uma palavra, o silêncio que diz mais do que qualquer outra coisa. E é exatamente por isso que toda e qualquer pessoa tem a chance de ser feliz. Porque não importa o quão ruim sua vida esteja, esses pequenos momentos ainda vão existir, é só você valorizá-los ao invés de esquecê-los. Nada é tão ruim que dure para sempre, é o que eu acredito. Preciso acreditar nisso para conseguir seguir em frente, principalmente quando as coisas vão mal. Principalmente quando uma sensação ruim começa a rondar minha vida, que é como eu me sinto na maioria dos dias, como se algo muito ruim estive prestes a acontecer, o que diminui até quase desaparecer qualquer coisa boa que possa estar acontecendo. É o medo que adianta o sofrimento, que me faz lembrar todos os dias onde eu já estive, e para onde eu posso voltar a qualquer momento. É torturante, arrasador.

Mas não é sobre isso que eu quero falar hoje. Hoje eu quero falar sobre a felicidade. Ela está bem aqui, sempre ao alcance, sempre por perto, sempre desvalorizada e esquecida, diminuída, excluída. Por que? Por que nós damos mais valor para as coisas ruins a nossa volta do que para as boas? Por que uma única coisa ruim é capaz de estragar um dia inteiro ótimo? Seria bom se fosse o contrário, seria bom se um único e pequeno gesto ou situação boa pudesse transformar um dia inteiro ruim, mas as coisas não são assim. Quando choramos, não nos lembramos de todos os sorrisos que demos antes dessas lágrimas e muito menos pensamos que ainda teremos infinitos sorrisos pela frente. É como se fosse o fim do mundo, a cada tombo ou tropeçada, o fim do mundo. Como se tivéssemos ido morar em um lugar onde a felicidade não nos pode mais alcançar. E isso não é verdade, não existe lugar no mundo onde não exista um pingo que for de esperança, esperança de que um dia nós iremos voltar a sorrir. Nós iremos voltar a sorrir, pode ter certeza.

Então enxugue essas lágrimas e levante novamente. Não importa quantas vezes você caia, a felicidade continua bem ao seu lado, só basta você se levantar. Não desista. Você tem tanta chance de ser feliz como qualquer outro. É o que eu acredito pelo menos, é o que me faz seguir em frente.

(Por Sabrina Silva.

Visite o meu blog! -> http://yoyo-sah.blogspot.com.br/)
9 de set. de 2013

Desregulação Emocional e Mindfulness - (1)




Desregulação emocional significa que você reage emocionalmente à coisas que a maioria das pessoas não reagiriam, sua reação é mais intensa do que precisava e que você leva mais tempo para se recuperar dela ou para retornar ao seu estado normal (estado basal). As pessoas que tem dificuldade em regular ou administrar suas emoções geralmente sentem dificuldade em tolerar suas emoções e muitas vezes tem problemas para identificar, compreender e expressar como se sentem.

Ela não é incomum. Geralmente anda de mãos dadas com problemas da saúde mental, como o transtorno de personalidade borderline ou transtornos de humor e de ansiedade, mas pode também estar presente em pessoas sem nenhum transtorno específico. Dificuldades em regular suas emoções podem levar a problemas variados em sua vida. Tentar evitar ou tolerá-las podem te levar a se engajar em comportamentos doentios, como beber ou usar drogas, alimentação desregrada, jogos de azar, gastar demais ou práticas sexuais perigosas (como ter relações sexuais com estranhos). A lista continua indefinidamente.

Além disso, seus relacionamentos e sua auto-estima podem sofrer, como resultado de sua inabilidade para gerenciar suas emoções ou dos comportamentos doentios que acabei de mencionar.

O que causa a desregulação emocional?

Infelizmente, quando falamos sobre doenças mentais, há muito que ainda não sabemos. A teoria que prevalece é que não existe uma causa única. É preciso uma predisposição genética ou biológica, juntamente com certos fatores ambientais, para um transtorno em particular se desenvolver.

Com a desregulação emocional não é diferente. Existem evidências que a forma que experienciamos as emoções está conectada dentro de nós, algumas pessoas simplesmente nascem mais sensíveis emocionalmente que outras. 

Mas nosso ambiente também tem um papel importante no desenvolvimento da desregulação emocional, e trauma é um fator em comum para pessoas que tem problemas administrando suas emoções: ter sido abusado fisicamente ou sexualmente ou ter sido negligenciado quando criança, por exemplo. De acordo com a terapia comportamental dialética, um dos fatores que mais contribui para a desregulação emocional é ter crescido em um ambiente de invalidação, onde você foi ensinado que suas emoções estavam erradas ou inapropriadas.

O que é Mindfulness?

Nós vivemos nossas vidas muito no piloto automático, seguindo sem saber muito bem o que estamos fazendo. Você não tem momentos de sua vida em que você gostaria de ter estado mais presente, ao invés de estar com a cabeça no que aconteceu antes ou no futuro? Consegue se lembrar momentos em você estava tão imerso em suas preocupações, sua raiva ou outros sentimentos que perdeu o que estava acontecendo no presente? Isso é estar sem consciência, sem atenção, ou Mindless.

Mindfulness (atenção/consciência) é definido como o ato de prestar atenção propositalmente no momento presente, sem julgamento (Kabat-Zinn 1994). Em outras palavras é estar consciente intencionalmente do momento presente e, ao invés de julgar o que quer que encontre nele, permitir-se se voltar para a experiência.

Focando no momento presente, mindfulness te ajuda a treinar sua mente a controlar para onde sua atenção vai ao invés de deixar sua mente te controlar. Ela não é uma coisa nova. Tem sido praticada no mundo oriental por milhares de anos como forma de meditação é uma parte bem conhecida de práticas espirituais como o Zen-Budismo. 

Inclusive, viver uma vida com mais "atenção" pode aumentar sua alegria pela vida, sua habilidade de lidar com doenças, reduzir o stress, a ansiedade, insônia e melhorar seu sistema imunológico. (Harvard Women's Health Watch 2004). Além disso, ela geralmente traz uma maior consciência de si mesmo, aumenta sua habilidade de tolerar pensamentos perturbadores e ativa o cortex esquerdo pré-frontal, uma parte do seu cérebro que está conectada a experienciar felicidade e otimismo.

O Minfulness ajuda na regulação emocional porque aumenta sua consciência de si mesmo e praticando ele por um tempo te ajudará a escolher como responder a uma situação ao invés de simplesmente reagir quando situações estressantes e emoções dolorosas ocorrem.

(fonte: Calming the Emotional Storm - Sheri Van Dijk, MSW)

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* Não estou mal, mas também não estou 100%. Mas resolvi seguir com uma idéia da lista de e-mails da My Dialectical Life e farei essa semana uma "semana da felicidade". Não precisa ser aquele conceito utópico de estado profundo de contentamento, mas queria passar a semana falando de jeitos de ficar bem, nem que seja naquele momento. Por isso comecei esta série de posts sobre Mindfulness. Vou postar uns exercícios, umas dicas, vale a pena tentar e não te custa nada, e o máximo que pode te acontecer é ficar relaxado... :)

Uma semana linda para vocês!





7 de set. de 2013

Transtorno de Personalidade Borderline e o Bullying




Bullying na infância pode causar mais do que danos físicos e psicológicos no seu filho. Um estudo do Journal of Child Psychology and Psychiatry sugere que bullying durante o ensino elementar pode aumentar o risco da criança de desenvolver o Transtorno de Personalidade Borderline.

Em um estudo com 6.050 mães e seus filhos, os pesquisadores  descobriram os que sofreram deste tipo de violência quando tinham entre 8 a 10 anos tiveram um risco maior de desenvolver os sintomas do TPB. Esta informação se confirmou não importando o tipo de bullying que a criança sofreu.

O estudo levou em consideração outros fatores que contribuem para o Borderline, incluindo hostilidade parental e abuso sexual. Embora estes fatores sejam relevantes para o diagnóstico do transtorno, os pesquisadores reportaram que a relação entre bullying na infância e TPB permanece a despeito da presença desses outros fatores.

Quando o bullying infantil foi crônico, significando que ocorreu entre os 8 e 10 anos, o risco de desenvolver o Transtorno de Personalidade Borderline foi 5 vezes maior que em crianças que não tiveram este problema. Crianças que experienciaram bullying físico e psicológico tiveram sete vezes mais risco de se tornarem borders.

Para ver o estudo completo, publicado em Agosto de 2012 na edição do Journal of Child Psychology and Psychiatry, clique aqui.



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ATENÇÃO: O TEXTO ABAIXO PODE CONTER GATILHOS

* Eu posso dizer por experiência própria que o bullying foi uma das principais causas de eu ter desenvolvido o TPB. Não aconteceu tão cedo, mas a partir de mais ou menos 10 anos de idade, eu sofria muito com a maldade das outras crianças e adolescentes, a medida que eu fui crescendo. Colocavam apelidos horrorosos em mim, falavam pelas minhas costas, riam quando eu passava. Falavam de tudo, do fato de eu ser gorda, de ter o cabelo mais seco... Nunca me achei bonita e hoje em dia são poucas as vezes que isso acontece. Cresci com a idéia que você só seria legal e interessante se fosse magra. Principalmente magra. Tanto que quando cheguei a idade mais adulta sentia nojo quando eu por ventura estava mais magra (devido aos milhares de regimes loucos que já fiz) e recebia cantadas, elogios. Pra mim era como se eu só tivesse valor se fosse magra, de cabelo liso e perfeito. 

Ainda hoje, depois de perder muitos quilos por causa da crise desencadeada pelo fim de meu namoro, fico paranóica de ganhar peso de novo, mas também não consigo fechar a boca. Pelo menos, provavelmente pelos remédios, meu apetite diminuiu drasticamente. A fome não me incomoda mais. Acho que isso acontece quando você fica 14 dias sem comer.

É muito cruel isso que acontece. Esta ditadura de beleza, de status... A única coisa que eu sugiro é que os pais monitorem de perto seus filhos, pois essa violência a gente sofre calado, por vergonha. E ela pode nos perseguir por muito tempo.


4 de set. de 2013

Sobre o Perdão


Hoje vou abrir mão do espaço de expressão do que penso em favor de algo que realmente melhorou meu dia....

SOBRE O PERDÃO

Os quatro estágios do perdão:

1. Deixar passar — deixar a questão em paz

2. Controlar-se — renunciar à punição
3. Esquecer — afastar da memória, recusar-se a repisar
4. Perdoar — o abandono da dívida

DEIXAR PASSAR
Para se começar a perdoar, é bom deixar passar algum tempo. Ou seja, é bom deixar de pensar provisoriamente na pessoa ou no acontecimento. Não se trata de deixar algo por fazer, mas assemelha-se a tirar umas férias do assunto. Isso ajuda a evitar que fiquemos exaustas, permite que nos fortaleçamos por outros meios, que tenhamos outras alegrias na vida.
Esse estágio é um bom treino para o abandono definitivo que mais adiante advirá do perdão. Deixe a situação, a recordação, o assunto, tantas vezes quantas for necessário. A idéia não é a de fechar os olhos, mas a de adquirir agilidade e força para se desligar da questão. Deixar passar envolve voltar a tecer, a escrever, ir até o mar, aprender e amar algo que a fortaleça e deixar que o tema saia do primeiro plano por um tempo. Isso é bom e é medicinal. As questões de danos passados irão atormentar a mulher muito menos se ela garantir à psique ferida que lhe aplicará bálsamos medicinais agora e que mais tarde tratará do assunto de quem provocou tal ferida.

CONTROLAR-SE
A segunda fase é a do controle, especificamente no sentido de abster-se de punir; de não pensar no fato nem reagir a ele seja em termos grandes, seja em termos pequenos. É de extrema utilidade a prática desse tipo de refreamento, pois ele aglutina a questão num único ponto, em vez de permitir que ela se espalhe por toda a parte. Essa atitude concentra a atenção para a hora em que a pessoa se dirigir aos próximos passos. Ela não quer dizer que a pessoa deva ficar cega, entorpecida ou que perca sua vigilância protetora. Ela pretende conferir um prazo à situação para ver como isso ajuda.
Controlar-se significa ter paciência, resistir, canalizar a emoção. Esses são medicamentos poderosos. Faça tanto quanto puder. Esse é um regime de purificação. Você não precisa fazer tudo; você pode escolher um aspecto, como o da paciência, e praticá-lo. Você pode se abster de palavras, de resmungos punitivos, de agir de modo hostil, ressentido. Ao evitar punições desnecessárias, você estará reforçando a integridade da alma e da ação. Controlar-se é praticar a generosidade, permitindo, assim, que a grande natureza compassiva participe de questões que anteriormente geravam emoções que iam desde a ínfima irritação até a fúria.

ESQUECER
Esquecer significa afastar da lembrança, recusar-se a repisar um assunto — em outras palavras, deixar de lado, soltar, especialmente da memória. Esquecer não quer dizer entorpecer o cérebro. O esquecimento consciente consiste em deixar de lado o acontecimento, não insistir para que ele permaneça no primeiro plano, mas permitir que ele seja relegado ao plano de fundo ou mesmo que saia do palco.
Praticamos o esquecimento consciente quando nos recusamos a invocar o material inflamável, quando nos recusamos a mergulhar em recordações. Esquecer é uma atividade, não uma atitude passiva. Significa não trazer certos materiais até a superfície, nem revirá-los constantemente, nem se irritar com pensamentos, imagens ou emoções repetitivas. O esquecimento consciente significa a determinação de abandonar a prática obsessiva, de ultrapassar a situação e perdê-la de vista, sem olhar para trás, vivendo, portanto, numa nova paisagem, criando vida e experiências novas em que pensar no lugar das antigas. Esse tipo de esquecimento não apaga a memória; ele simplesmente enterra as emoções que cercavam a memória.

PERDOAR
Existem muitos meios e proporções com os quais se perdoa uma pessoa, uma comunidade, uma nação por uma ofensa. É importante lembrar que um perdão "final" não é uma capitulação. É uma decisão consciente de deixar de abrigar ressentimento, o que inclui o perdão da ofensa e a desistência da determinação de retaliar. É você quem decide quando perdoar e o ritual a ser usado para assinalar esse evento. É você quem resolve qual é a dívida que você agora afirma não precisar mais ser paga.
Algumas pessoas optam pelo perdão total: liberando a pessoa de qualquer tipo de reparação para sempre. Outras preferem interromper a reparação no meio, abandonando a dívida, alegando que o que está feito está feito e que a compensação já é suficiente. Outro tipo de perdão consiste em isentar a pessoa sem que ela tenha feito qualquer reparação emocional ou de outra natureza.
Para certas pessoas, finalizar o perdão significa considerar o outro com indulgência, e isso é mais fácil quando as ofensas são relativamente leves. Uma das formas mais profundas de perdão está em dar ajuda compassiva ao ofensor por um ou outro meio. Isso não quer dizer que você deva enfiar a cabeça no ninho da cobra, mas, sim, ser sensível a partir de uma postura de compaixão, segurança e preparo.
0 perdão é onde vão culminar toda a abstenção, o controle e o esquecimento. Não significa abdicar da própria proteção, mas da própria frieza. Uma forma profunda de perdão consiste em deixar de excluir o outro, o que significa deixar de mantê-lo à distância, de ignorá-lo, de agir com frieza, condescendência e falsidade. É melhor para a psique da alma restringir ao máximo o tempo de exposição às pessoas que são difíceis para você do que agir como um robô insensível.
O perdão é um ato de criação. Você pode escolher entre muitas formas de proceder. Você pode perdoar por enquanto, perdoar até que, perdoar até a próxima vez, perdoar mas não dar outra chance — começa tudo de novo se acontecer outro incidente. Você pode dar só mais uma chance, dar mais algumas chances, dar muitas chances, dar chances só se... Você pode perdoar uma ofensa em parte, pela metade ou totalmente. Você pode imaginar um perdão abrangente. Você decide.
Como a mulher sabe que perdoou? Você passa a sentir tristeza a respeito da circunstância, em vez de raiva. Você passa a sentir pena da pessoa em vez de irritação. Você passa a não se lembrar de mais nada a dizer a respeito daquilo tudo. Você compreende o sofrimento que provocou a ofensa. Você prefere se manter fora daquele meio. Você não espera por nada. Você não quer nada. Não há no seu tornozelo nenhuma armadilha de laço que se estende desde lá longe até aqui. Você está livre para ir e vir. Pode ser que tudo não tenha acabado em "viveram felizes para sempre", mas sem a menor dúvida existe de hoje em diante um novo "Era uma vez" à sua espera.


(Clarissa Pinkola Estés In: Mulheres que Correm com os Lobos)

***
3 de set. de 2013

Corda-bamba



O vento bate em meu rosto suado e eu dou mais um passo a frente. A corda bamba sob meus pés parece balançar mais a cada novo passo. Lá embaixo o precipício me aguarda e a frente o horizonte se estende para sempre. As vezes eu fico muito cansada, mas eu tenho que seguir em frente, não há outra opção. Tenho péssimas lembranças dos meus tombos no passado, eu simplesmente não posso cair de novo. Então dou mais um passo vacilante e mais outro, e mais outro. Talvez com o tempo eu me acostume com essa corda bamba, até ela parecer tão firme quanto um caminho largo de pedras. Pode ser só uma questão de tempo, de treino. Quem sabe? É uma batalha um tanto solitária, mas de vez em quando, se eu me concentrar, posso ouvir as pessoas que me amam torcendo por mim e isso é ótimo. E eu sei que elas estão ao meu lado, mesmo que muitas vezes eu não as posso ver.

Aos poucos nós nos acostumamos com as coisas do jeito que elas são e eu não questiono mais porque minha vida precisa se equilibrar em uma corda tão instável. Isso não me faz mais chorar de raiva ou invejar a vida alheia, não tanto quanto antes pelo menos. Eu só sigo em frente e tento dar o melhor de mim dentro das minhas limitações e está tudo bem... Está tudo bem se para mim a vida parece um pouco mais complicada, está tudo bem se as vezes eu perco o controle, está tudo bem. Está tudo bem se as pessoas se assustam quando veem meus braços e se eu sou julgada por isso. Está tudo bem se as vezes eu caio e preciso ser internada por isso... Está tudo bem. Se apesar de tudo eu conseguir ter uma vida, está tudo bem. E eu tenho, eu tenho uma vida que continua apesar de tudo, que ainda me espera com momentos gloriosos pela frente. Então nem tudo está perdido.

Os momentos ruins passam tanto quanto os bons e é você quem escolhe qual deles será o mais importante para você mesmo. Sabe... Quando você está em um lugar alto demais e corre o risco de cair, eles falam para você não olhar para baixo, mas eu adoro olhar para baixo, adoro ver tudo o que eu estou vencendo a cada passo. E acredite, isso não é pouca coisa. Olhe para baixo. É melhor estar no alto balançando ao sabor do vento do que atolado na lama no fundo do penhasco.

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