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29 de dez. de 2014

Até 20% dos adolescentes e adultos jovens já experimentaram a automutilação




Associação Americana de Psiquiatria estuda considerar o comportamento como transtorno psiquiátrico

Carolina Cotta - Estado de Minas

Publicação:10/12/2014 





"...eu estava me apunhalando, realmente me atacando com a chave de fenda e aquela dor física que eu estava causando foi melhor que qualquer droga que o hospital tinha. Estava fazendo todo o resto ir embora.A dor, a dor física, estava fluindo pelas minhas veias como heroína, e eu estava entorpecida, imune a todo o resto. Eu não pude sentir nada além de dor, e eu sabia que eu tinha achado um jeito de me salvar" - Trecho do livro Willow, de Julia Hoban


“Não lembro da primeira vez que me cortei, mas eu sentia uma angústia muito grande e não sabia como lidar com aquilo. Em algum momento, comecei a me arranhar e depois a me cortar. Nunca foi algo para chamar atenção, eu escondia. Também não sentia dor, mas aliviava meu sofrimento.” As lembranças de adolescência da bióloga Carolina Costa, hoje com 25 anos, ilustram a triste realidade das pessoas que se automutilam para enfrentar sentimentos com os quais não conseguem mais lidar. Não existem estudos epidemiológicos no Brasil sobre a incidência de autolesão, mas pesquisas feitas no exterior mostram que a prática vem crescendo nos últimos anos. Dados mundiais, considerando apenas adolescentes e adultos jovens, mostram que de 17% a 20% já tiveram, em algum momento da vida, tal comportamento.

Segundo a psiquiatra da infância e da adolescência Jackeline Giusti, responsável pelo ambulatório de adolescente e automutilação do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), na quinta edição do Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais da Associação Americana de Psiquiatria, o DSM-5, a automutilação é classificada como transtorno psiquiátrico com necessidade de estudos futuros. “Há uma tendência em considerar esse comportamento como um transtorno psiquiátrico por si só, e não mais como comportamento relacionado a outros problemas”, adianta a especialista. Já na Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10), ela é tida como transtorno do controle do impulso não específico, ou como um dos sintomas de transtornos de personalidade como o borderline.

O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), classificado pelo psicanalista Adolph Stern como uma patologia entre a neurose e a psicose que gera uma disfunção no metabolismo cerebral, desintegrando o ego e gerando um sentimento de perda desesperador, é o caso da personagem de Débora Falabella na minissérie Dupla identidade, da Globo. Na trama, a produtora de moda Ray arranha os braços até sangrar muito quando o namorado Edu, o psicopata serial killer vivido por Bruno Gagliasso, some.

Por outro lado, segundo Giusti, há a tendência de desvincular a automutilação de transtornos de personalidade, como o borderline. “Transtorno de personalidade não tem muito tratamento, seu controle não é algo direto. Tem muito paciente que se automutila e não é borderline. Primeiro, porque adolescente nao tem transtorno de personalidade, porque sua personalidade ainda não está formada. Tem, no máximo, traços”, explica.

A automutilação geralmente começa na adolescência e é mais comum nessa faixa etária, mas pode se prolongar até a vida adulta. Um estudo australiano acompanhou, por oito anos, pessoas que começaram a se automutilar ainda jovens e revelou que sintomas depressivos e suporte familiar fraco seriam fatores determinantes dessa persistência do comportamento. O auto-flagelo na adolescência é tema do recém-lançado livro Willow (Editora LeYa), da norte-americana Julia Hoban. Voltado para o público infanto-juvenil, o romance conta a história da personagem que dá nome ao livro, que começa a se cortar para se livrar do sofrimento e da culpa de ter causado a morte dos pais, que faleceram em um acidente de carro em que ela dirigia.


O PANO DE FUNDO 

A pessoa que se automutila, com frequência, refere-se a uma tensão anterior. Segundo a psiquiatra Jackeline Giusti, o ato de se machucar, se morder, se bater – o mais comum é se cortar e se queimar – dá um alívio a quem o pratica. Isso porque o corte, ou qualquer outra lesão no corpo, libera endorfina, mesmo hormônio que dá sensação de bem estar após o exercício aeróbico, por exemplo. Alguns estudos sugerem que quem se automutila liberaria, em função do estresse que antecede o ato, uma quantidade maior do hormônio que outras pessoas. Outra hipótese é a de que uma pré-disposição genética poderia estar relacionada a uma maior liberação de endorfina, o que provocaria uma sensação de bem-estar e não de dor.

Carolina Costa começou a se cortar aos 12 anos. Naquela época, em função da profissão da mãe, se mudava várias vezes de cidade ou de escola, o que, para ela, foi determinante para se tornar retraída e tímida. “As mudanças trouxeram muitos problemas. Não criava raiz, não criava vínculos, não tinha muitos amigos para compartilhar questões mais pessoais”, lembra. Discussões na família ou mesmo uma cena vista na televisão que a entristeciam começaram a ser gatilhos para o ato de se arranhar e depois experimentar cortes mais elaborados, com tesoura, compasso e lapiseira, até passar para a faca. “Não tinha muito padrão. Algumas vezes, os cortes eram mais profundos; em outras, mais superficiais. Dependia da angústia que eu sentia. A maioria das vezes, fazia cortes rápidos e repetitivos no mesmo lugar. E eu não sentia dor”, lembra.

A preocupação com a ansiedade de Carolina fez a mãe levá-la a um médico ortomolecular, que pediu para ficar sozinho com a adolescente, na época com 14 anos. “Aquilo me deu confiança para contar da angústia que eu sentia e com a qual não sabia lidar.” O acolhimento do especialista foi marcante para a paciente, que se lembra de ele explicar que pessoas depressivas como ela, e com transtorno de ansiedade, seriam mais sensíveis e intolerantes a injustiças, que não conseguiam ser superficiais. Segundo Giusti, é comum que a automutilação esteja mesmo associada a depressão e ansiedade, daí a terapia ser essencial na abordagem do problema. Carolina parou de se cortar com 17 anos, mas se tratou até os 19 anos. Diminuiu a frequência da automutilação desde que começou a fazer a terapia e a se medicar.

Segundo Fátima Vasconcellos, diretora médica do Hospital Geral da Santa Casa do Rio de Janeiro, o tratamento é com terapia cognitivo-comportamental e medicamentos antidepressivos, como inibidores seletivos de recaptação de serotonina. “É fundamental que as pessoas reconheçam que isso é uma doença e, principalmente, que é tratável”, alerta. Para a especialista, os pais devem ficar atentos para levar os filhos a um especialista se desconfiarem de uma automutilação. Também é preciso observar as comunidades das redes sociais que dão apoio a esses adolescentes, mas também trocam experiências de como se mutilar. “Infelizmente, a internet é uma extraordinária ferramenta tanto para o bem quanto para o mal. Sempre tem pessoas estimulando comportamentos autodestrutivos, inclusive orientado como fazê-lo de forma mais eficiente”, chama a atenção Fátima.

A forma como esse problema é abordado pelos adultos é muito importante. Educadores que desconfiarem do comportamento em alguma criança ou adolescente devem procurar os responsáveis. Segundo Giusti, é a oportunidade de saber se a família está enfrentando algum problema em casa que possa estar desencadeando o comportamento. Mas o mais importante é não reforçar o estigma de que o paciente faz aquilo para chamar a atenção, porque geralmente ele faz escondido, mesmo que em um segundo momento possa usar aquilo para manipular os pais. “Se o pais descobrirem que seu filho está se cortando, a regra é básica: olhe para ele como se ele estivesse chorando e pergunte o motivo do sofrimento. O problema não é o corte. Ninguém feliz se corta. É preciso descobrir o sentimento que está por trás daquilo”, alerta a psiquiatra.


26 de dez. de 2014

Sobre Dupla Identidade.




Um dia eu estava conversando no WhatsApp e aparece a mensagem: "Glória Perez deixou uma mensagem pra você". E foi assim que comecei a minha história com o seriado Dupla Identidade. No começo eu não acreditava que a coisa iria tão longe. Sabe quando é muito bom pra ser verdade? 

A cada e-mail trocado com a Débora, com a Glória, a cada pergunta respondida, foi crescendo a minha ansiedade, mas insistia em manter os pés no chão. Se eu voasse muito alto, podia acabar caindo feio, na minha cabeça. E não estava ajudando pensando em aparecer na TV, na internet, enfim. Eu só queria ajudar. Só a visibilidade para o transtorno que o seriado traria seria suficiente para que eu fosse recompensada.

A partir de julho, tudo aconteceu rápido: apareci no GSHOW, Fátima Bernardes, enfim... Graças à Glória eu hoje posso mostrar minha cara, meu nome, minha luta. Eu posso tatuar o símbolo do blog no braço, eu posso dizer que tenho o Transtorno de Personalidade Borderline e mesmo assim trabalho, ganho meu dinheiro, pago minhas contas. Que faço terapia sim, que tomo remédio sim, e que ninguém pode usar isso contra mim. Posso lutar contra o estigma com minha própria voz.

E a Ray foi nossa voz. Cada vez que eu a via ali, chorando, se cortando, confusa, angustiada, enraivecida, eu me via, exposta nas minhas fraquezas e qualidades, como tantos outros que com certeza sentiam a mesma coisa. Ela foi nossa primeira porta para que o Brasil soubesse que não somos simplesmente dramáticas e chamadoras (es) de atenção. Amei e sofri cada minuto. 

Por que estou contando tudo isso aqui? Porque o que aconteceu comigo é prova de que a vida reserva coisas para nós, e não fazemos idéia do que seja. Quando eu criei este blog eu estava num lugar muito escuro. Eu me cortava diariamente. Pensava em morrer sempre. Não saia de casa. E esse mesmo blog me salvou, quando a maioria daqueles que eu conhecia me virou as costas. Se alguém me dissesse que menos de dois anos após criar este espaço eu estaria na Globo, eu ia rir muito, afinal de contas, não achava sequer que estaria viva.

Foi no ajudar pessoas que me ajudei, me levantei e por isso luto, dia após dia. O blog transformou minha dor em troféu. Eu não estou "curada", caio, levanto, e são as mensagens de estímulo de vocês que me dão forças para continuar.

Que tudo que aconteceu comigo sirva de mais um exemplo que há esperança. Que as vezes fazemos coisas e pegamos caminhos os quais nem imaginamos, mas que o retorno acontece, a vida surpreende. E que, apesar de muitas vezes não acreditarmos, ela vale a pena ser vivida sim.


19 de dez. de 2014

Sobre o “ser” borderline.




Amamos tanto que nos perdemos. Perdemos a nós mesmas pela ausência de uma identidade, por essa desregulação emocional que embaça o juízo. Eu estou reaprendendo a ser quem sou, pouco a pouco. As músicas que gosto, a roupa que visto – um dia blazer, outro tênis no pé – de acordo com meu humor.

Acho que amamos o amor – vício de apaixonar, pelo marido, pela mãe, pai, melhores amigos - vício de sentir muito. O pouco, o blasé, não satisfaz. Só por um período. Enjoa, meu cabelo enjoa, o corpo enjoa, o sentimento enjoa e a sensibilidade aflora.

Todavia tem jeito de tirar este óculos que nos faz enxergar com “olhos de caleidoscópio” (citando John Lennon) – a vida que vale a pena ser vivida é real. Não a normal, aquele “normal” que te fizeram crer ser o certo. O seu “normal”. Sensíveis, coloridos, apaixonantes, seremos sempre, com ou sem diagnóstico. Aliás, somos bem mais do que um. Ao ultrapassá-lo, aprendemos que ser borderline não nos define – ao nos dar conta de quem realmente somos. Ser borderline me ensinou a ser eu.

Por isso, lute. Vá a terapia, cuide de si, acredite mesmo sem acreditar, há luz, Ame-se. Descubra-se. Tente todos os dias, caia, levante, mas não desista. Não se humilhe, se baste. Nem que seja por hoje. Acredite que você é mais que um “ser” borderline e seja, simplesmente.





1 de dez. de 2014

Princesa Borderline - depoimento (e mais uma colaboradora!)




(texto de Isabella, nossa nova colaboradora)

Nada melhor do que eu mesma para relatar essas idas e vindas que ocorrem no cotidiano complexo dessa jovem digamos que "perturbada" pelas próprias lembranças e frustrações.

Digamos que ela segue uma mistura de fada encantada com a bruxa da branca de neve - não que isso seja bom, claro que não é nada bom - mas para ela era uma virtude que poucos infelizes conseguem ter. Mas ela conseguia driblar tudo e todos com seu jeito e suas manias, mas, a única coisa que ela realmente queria era atenção - e ela tinha - era algo diferente, como de costume não era algo comum, ou no fundo era, mas não para ela.

Quando era uma doce criança já enfrentava problemas com as pessoas, ai que vem a pergunta - por causa dela ou dos outros? - Ainda não sei, ninguém sabe, ou pelo menos não quer realmente saber. Ela não conseguia se achar maligna, afinal, como alguém consegue ser maligna com 6 anos? Nos mais aguardados filmes de terror isso sempre foi possível, mas não é uma coisa ocasionalmente pensada, apesar de que os pais sempre aguardam que seus filhos sejam perfeitos... Acontece, que nem toda criança quando lida com os primeiros confrontos faz tudo da maneira mais indicada.

Apesar das idas a psicóloga ou os encontros fervorosos de família, Isa ainda não via nada de tão diferente no seu jeito de ser. Criada pelos pais até os 13 anos, e depois foi morar com sua mãe em um condomínio no centro da cidade, sem conviver com o pai e sua família por quatro anos, o que podemos dizer? Muita coisa muda em quatro anos não é?

A convivência com sua mãe era muito boa, ela era sua melhor amiga, e a jovem sentia muito orgulho da mãe, tanto pela pessoa que era e sem dúvidas a determinação da mãe. Depois da morte de sua avó, tempo difícil, as duas resolveram ajudar uma a outra. Depois desse tempo o pai de Isa ao rever a filha, encontrou uma moça tatuada, que fumava e bebia, e ainda por cima ficava com meninas. Esse primeiro contato não foi a melhor coisa do mundo, mas depois que ele levou a filha em uma clínica psiquiátrica a 1500 km de distância, deve ter levado o um baita susto e resolveu fazer o papel de pai uma vez por semana.

A adolescência não é o melhor período da vida, mas é com ele em que descobrimos quem somos, e foi aí em que começa o tormento e o sangue. A jovem começou a ir em um psiquiatra a pedido da mãe, ao ver que sua filha precisava de ajuda, um tratamento foi iniciado e ela ia ao médico de 15 em 15 dias...
Um tratamento longo, até chegarem a conclusão depois de dois anos que ela tinha um transtorno de personalidade, chamado Borderline. Não era nada fácil para ela entender o que era isso, mas com várias pesquisas na internet e com a ajuda de sua mãe as coisas começaram a se encaixar, com duas tentativas de suicídio nada agradáveis, dias sofridos, automutilação, noites sem dormir, crises, ela resolveu ir se internar. Como ela mesmo dizia "todos deveriam passar por essa experiência", torno das palavras dela as minhas. 

Não é a vida que uma garota de dezessete anos queria, mas ela tentava tirar as coisas boas do momento em que estava, depois de ganhar alta ela começou a encarar os fatos de uma maneira mas coerente, por mais que acabava se frustrando uma vez ou outra. Depois disso, ela recebeu um tiro pelas costas da pessoa que ela mais amava, ela parou, e pensou o que ela deveria fazer naquele momento. Ela ergueu a sua cabeça e foi em diante. 
E tudo ficou feliz para sempre? Não, ela passava por provas todos os dias de sua vida, por um tempo resolveu ficar afastada de tudo, ficar na sua cama, ver seu filme, curtir sua gata Amy e aproveitar o que ela tinha para aproveitar nos dias atuais. 

Ela não era nenhuma princesa de contos de fada, era uma guerreira, graças ao apoio e carinho de sua mãe que acreditou nela até quando a própria Isabella deixou de acreditar.
20 de nov. de 2014

Como a neurociência explica a automutilação (parte 4)



(essa é uma reportagem longa que saiu agora em outubro sobre a automutilação, que estou traduzindo aos poucos e publicando - pra ler do início, coisa que eu sugiro que façam, segue: parte 1 , parte 2, parte 3)


Todos estes resultados significavam que a definição de auto-lesão tinha de ser redefinida. Em 2006, um pequeno grupo de cientistas da primeira reunião da Sociedade Internacional para o Estudo da Automutilação (ISSS - International Society for the Study of Self-Injury) fez exatamente isso. "Nós discutimos a definição durante o jantar e drinks em uma noite," Heath disse. "Significou que o pobre garçom teve de ouvir a conversa de jantar mais perturbadora de sua vida. Nós nos perguntávamos coisas como: "Então, se a remoção de seu próprio globo ocular é auto-mutilação, o que dizer de beber água sanitária?" '

A definição que eles desenvolveram ainda vale: a auto-lesão não suicida é a destruição auto-infligida e deliberada de tecido corporal sem intenção suicida, nem para fins socialmente aceitos, tais como piercings ou tatuagens. Os estudos epidemiológicos descobriram que, enquanto cerca de um terço de todos os adolescentes tinham deliberadamente se machucado pelo menos uma vez, menos de um em cada 10 adolescentes e adultos jovens repetidamente o fizeram. Além disso, embora muitas cultura pop falam da auto-lesão como uma coisa "de mulher", os estudos descobriram que os homens e as mulheres se machucavam em proporções mais ou menos iguais.

O grupo é heterogêneo. Muitos lutam com a depressão, ansiedade e distúrbios alimentares. Alguns satisfazem os critérios para transtorno de personalidade borderline. No entanto, outros têm distúrbios do espectro do autismo ou, como eu, transtornos de ansiedade associados; esse último grupo passa mais tempo pensando sobre automutilação antes de se envolver nela, e tem o maior risco de suicídio.

Na verdade, o corte e outras formas de auto-mutilação corporal estão entre os preditores mais fortes de futuro comportamento suicida, diz Stephen Lewis, psicólogo da Universidade de Guelph, em Ontário. Lewis e outros acreditam que a auto-mutilação sinaliza a incapacidade de lidar com as emoções à mão. A fuga temporária que a auto-lesão fornece poderia ser um precursor para a fuga mais permanente de suicídio.

Independentemente das razões em que o suicídio e auto-mutilação estão tão fortemente ligados, os pesquisadores ainda se esforçaram para entender por que as pessoas repetidamente (e deliberadamente) se machucam. Matthew Nock, agora um professor de psicologia em Harvard, tentou descobrir isso enquanto ele era um estudante de doutorado na Universidade de Yale sob a tutela do psicólogo Mitch Prinstein (que agora está na Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill). Ao mergulhar na literatura sobre outros comportamentos repetitivos e pedindo às pessoas que se auto feriam  para manter diários, Nock e Prinstein desenvolveram o Modelo de Fator Quatro em 2004.

O modelo funciona através de reforço positivo e negativo, Prinstein me disse. O reforço positivo é quando fazendo algo nos dá uma recompensa; reforço negativo é a remoção de algo que nos faz sentir mal. A auto-lesão oferece reforço positivo e negativo, tanto por razões intrapessoais (alterando emoções) e por razões interpessoais (alterando nossas relações com os outros). Alguém que está tão anestesiada pela depressão que ela não sente nada pode cortar se para sentir algo, qualquer coisa, mesmo que seja a dor - um exemplo de reforço positivo, por razões intrapessoais. Outros podem estar ansiosos ou enfurecidos e se machucam para diminuir esses sentimentos, o que é um caso de reforço negativo intrapessoal. Outros ainda podem ferir-se para demonstrar o quão angustiados estão e para forçar uma reação de entes queridos (reforço positivo interpessoal) ou para que deixem de fazer alguma coisa (reforço negativo interpessoal). As razões de uma pessoa para a auto-lesão podem ser diferentes a cada vez, e podem abranger uma variedade de motivações, mas algumas são mais comuns do que outras.

"De longe, a razão mais comum que as pessoas deram para se mutilarem foi que era para parar de se sentir tão mal" Prinstein disse.

Eu poderia me identificar com isso. Emoções intensas e negativas as quais eu não sabia como lidar sempre precediam um episódio de auto lesão. Às vezes, o objetivo era se sentir melhor. Outras vezes, o desejo de diminuir o volume das emoções como raiva ou ansiedade era tingido pela vontade de me punir. Eu merecia sofrer, eu merecia sentir dor e ter cicatrizes para que o mundo soubesse que eu era uma pessoa horrível. Nem todos, no entanto, relataram sentir dor ao se ferir; uma porção substancial de pessoas que se auto ferem dizem que suas ações não resultam em dor imediata.

Tudo isso levou Joseph Franklin, que recebeu seu PhD, e atualmente é um pós-doutor no laboratório de Nock, a perguntar se as diferenças na percepção da dor poderiam contribuir para a automutilação. Ele trouxe 25 pessoas que regularmente se auto lesavam para o laboratório e pediu-lhes para colocar as mãos na água gelada, uma forma comum de medir a dor.

Comparados com 47 controles, os indivíduos que se auto-mutilavam foram capazes de deixar suas mãos na água gelada por mais tempo, indicando uma percepção da dor diminuída. Franklin também descobriu que aqueles com maiores dificuldades na regulação e resposta às emoções também foram capazes de suportar a dor por mais tempo. Era como se a sua dor emocional os distraísse da dor física.

Um estudo relacionado por Nock e seus colegas de Harvard mostrou que a auto-crítica também aumentava a quantidade de tempo em que os indivíduos que se auto feriam poderiam suportar a dor. Franklin acredita que as pessoas que são excessivamente autocríticas pode forçar-se, para suportar a dor por mais tempo. Esses dois fatores - regulação da emoção e auto-crítica - parecem ser independentes, e aparecendo juntos provavelmente se aumentaria o risco de auto-lesão ainda mais.

Este achado bateu comigo. Alguns dos meus piores períodos de corte ocorreram após lutas pessoais na pós-graduação, sendo a dificuldade em completar a minha tese, uma nota ruim em um exame, ou apenas sensação geral de não ser bom o suficiente. Eu revolvia no ódio por mim mesmo. Especialistas provavelmente diriam que o meu sentimento de que eu merecia a dor, ou que de alguma forma a adquiria através do meu comportamento, tornava-a mais fácil de tolerar.

continua...

(tradução livre/edição da reportagem: "Why self-harm?")
29 de out. de 2014

Como a Neurociência explica a automutilação. (parte 3)




(essa é uma reportagem longa que saiu agora em outubro sobre a automutilação, que estou traduzindo aos poucos e publicando - pra ler do início, coisa que eu sugiro que façam, segue: parte 1 , parte 2)

Lader primeiro começou a estudar e tratar a auto-lesão no início de 1980, depois que seu colega Karen Conterio começou a ver sinais de mais e mais mulheres a auto-flagelando em seu trabalho ambulatorial para abuso de substâncias. Nenhuma destas mulheres mostraram sinais de distúrbios psicóticos ou de personalidade, nem estavam se cortando ou queimando-se com intenção de suicídio. Conterio pensou que estava vendo apenas a ponta do iceberg, e por isso ela colocou um anúncio no jornal Chicago Tribune em 1984, pedindo para ouvir aqueles que se machucavam regularmente sem a intenção de cometer suicídio. Foi uma enxurrada de cartas, e de repente as pessoas começaram a falar sobre auto-lesão. O seu surgimento como um fenômeno da cultura pop levou a uma aparição no programa de TV Phil Donahue em 1985 com várias mulheres que se auto machucavam. 

Em 1986, Lader e Conterio fundaram o que se tornaria a SAFE Alternatives(Self-Abuse Finally Ends - o auto-abuso finalmente termina ) , a primeira instalação residencial  do mundo especificamente para tratar as mulheres que se automutilavam, localizada nos arredores de St Louis. Psicólogos acreditavam que Lader e Conterio estavam vendo um subconjunto raro da população, e que as psiquês dessas mulheres estavam tão irremediavelmente marcadas quanto seus corpos. Lader não estava convencido. "Eram pessoas incríveis, brilhantes, inteligentes jovens que tinham tanta promessa, só que foram consumidas por pensamentos de se machucarem", Lader me disse. 

Embora outros duvidassem, Lader também acreditava que automutilação era muito mais comum do que se pensava. A prova finalmente chegou em 2002 a partir de Nancy Heath, uma psicóloga da Universidade McGill, no Canadá, e sua aluna de doutorado, Shana Ross. Em uma escola local, Ross estava conversando regularmente com os adolescentes, que expressavam preocupação com a sua própria prática de automutilação ou de um amigo. Quando ela quis tornar este o foco de sua dissertação, Heath tentou convencê-la do contrário. 

"Eu disse a ela que ela nunca iria encontrar número suficiente de pessoas que se automutilavam para obter os dados para uma tese," Heath disse. "Eu finalmente concordei em deixá-la tentar." 

Os resultados preliminares de Ross indicaram que mais de um em cada cinco jovens praticaram a auto-lesão pelo menos uma vez. Isto chocou tanto Heath e o resto da comissão de dissertação que eles achavam que os alunos do ensino médio tinha entendido mal a pergunta. Então, Ross voltou para a prancheta, fazendo entrevistas com mais profundidade com os que haviam relatado a auto-lesão e descartou todos os resultados com uma uma leve incoerência. Os percentuais caíram, mas Ross ainda ficou com um atordoante e elevado número de adolescentes que relataram a auto-mutilação: 13,9 por cento. 

Não muito tempo depois que o estudo de Ross e Heath apareceu no Journal of Youth and Adolescence (Jornal da Juventude e Adolescência), Janis Whitlock, uma psicóloga da Universidade de Cornell, publicou um estudo de auto-agressão entre 5.000 estudantes de várias universidades da Ivy League. Seus resultados mostraram  números igualmente elevados de jovens que tinham se machucado: 20 por cento das mulheres e 14 por cento dos homens disseram que tinham  se auto-ferido pelo menos uma vez. 

"Eu estava chocada. Todo mundo estava achando taxas muito altas ", me disse Whitlock. "A questão parecia vir do nada." 

O que foi inovador nesses dois estudos não foram apenas os altos índices para a auto-lesão, mas que estes eram populações da comunidade, e não de pessoas internadas por problemas psiquiátricos. Eram as pessoas que se sentavam do seu lado na sala de aula e ficavam na fila do supermercado.

continua...

(tradução livre/edição da reportagem: "Why self-harm?")


26 de out. de 2014

Como a Neurociência explica a automutilação. (parte 2)




(perdeu a primeira parte desta reportagem? Vá aqui.)

O sangue é uma força poderosa. Falamos de laços de sangue e terra que foi consagrada pelo sangue. Nós derramamos sangue para curar doenças e para apaziguar os deuses. Disputas de longa data entre grupos de pessoas tornam-se feudos de sangue. Sangue- e as lesões sofridas para obtê-lo - tem sido por muito tempo um símbolo de guerra e religião. Cristãos bebem vinho durante a Santa Ceia, que representa o sangue de Cristo, que foi derramado para redimir nossos pecados. Sacerdotes maias abriram suas próprias veias para um sacrifício de sangue para suas divindades. 

A auto-mutilação é tão antiga quanto. O historiador Heródoto escreve sobre o primeiro rei Cleómenes de Esparta, que enlouqueceu e foi colocado no tronco, no quinto século a.C: 
"Enquanto ele estava lá, percebeu que todos os seus guardas o deixaram, exceto um. Ele pediu a este homem, que era um servo, para emprestar-lhe a faca. No início, o companheiro recusou, mas Cleómenes, por ameaças de que ele faria com ele quando ele recuperasse a liberdade, o assustou tanto que ele finalmente consentiu. Assim que a faca estava em suas mãos, Cleomenes começou a mutilar-se a partir de suas canelas. Ele cortou sua carne em tiras, trabalhando para cima em direção a suas coxas, quadris e lados até que alcançou sua barriga, que ele cortou em picadinhos. 

Os primeiros relatos clínicos de que hoje seria reconhecido como auto-lesão apareceram no final de 1800, em Anomalias e Curiosidades da Medicina (1896) pelos médicos americanos George Gould e Walter Pyle. Eles escrevem sobre "meninas de agulha", as jovens mulheres que repetidamente feriam-se através da inserção de agulhas de costura e pinos em sua pele, desta forma cortando-se. Eles resumem o caso de uma mulher de 30 anos de idade, de Nova York assim: 
Em 25 de setembro ela cortou o pulso esquerdo e mão direita; em três semanas ela se mostrou novamente desanimada porque não quiseram lhe dar ópio, e novamente cortou os braços abaixo dos cotovelos, cortando a pele e fáscia, machucando completamente os músculos em todas as direções. Seis semanas depois, ela repetiu a façanha em cima das cicatrizes recentemente curadas [marcas de corte] ... Cinco semanas após a convalescença, durante os quais sua conduta foi exemplar, ela voltou a cortar os braços no mesmo lugar. Em abril do ano seguinte, por motivos banais, ela novamente repetiu a mutilação, mas desta vez deixando pedaços de vidro nas feridas. Seis meses depois, ela infligiu-se uma ferida de sete centímetros de comprimento, na qual ela inseriu 30 peças de vidro, sete lascas longas e cinco pregos de sapato. Em junho de 1877, ela cortou-se pela última vez. Os artigos a seguir foram retiradas de seus braços e preservados: 94 pedaços de vidro, 34 lascas, duas tachas, cinco pregos de sapato, um pin e uma agulha, além de outras coisas que se perderam - fazendo no total cerca de 150 artigos. 

Gould e Pyle classificaram esta automutilação ritualística como uma forma de histeria, e as mulheres que se faziam como enganadoras e em busca de atenção. De fato, até o início de 2000, a maior parte da literatura clínica classificava a auto-lesão com transtornos psiquiátricos mais graves, como psicose e transtorno de personalidade borderline, um estado de caos interno e instabilidade, especialmente quando relacionamentos estavam envolvidos. 

"Algumas mulheres que se machucavam eram hospitalizados cada vez que se cortavam, o que poderia ser centenas de vezes ao longo de sua vida. Elas essencialmente viviam nos hospitais ", disse Wendy Lader, o diretor clínico de um programa de auto-abuso EUA e um dos primeiros psicólogos a tratar a automutilação. "As pessoas achavam que eu era louco, quando eu disse que muitas dessas pessoas poderiam ser tratadas ambulatorialmente, porque eles não eram necessariamente suicidas."

continua...

(tradução livre e edição desta reportagem: "Why Self-harm?")